PM preso por agiotagem ameaçava arrancar olhos das vítimas

“Vou atrás de você na sua casa, onde você estiver eu vou te achar hoje. O U*** quer te matar também. (…) Eu vou morder seu olho, vou arrancar seu olho na mordida. Eu não vou só te espancar, não, vou te arrancar os pedaços, vou morder seu olho se eu te achar”, essas são apenas algumas das ameaças que Ronie Peter Fernandes da Silva fazia às vítimas que não pagavam os juros da agiotagem na data combinada.

Preso na última terça-feira (16), o sargento da Polícia Militar do Distrito Federal ameaçava as vítimas, obrigando-as a repassar os valores. As ameaças eram constantes nos áudios enviados por WhatsApp, a maneira como ele costumava se comunicar.

A investigação da Divisão de Repressão a Roubos e Furtos da Polícia Civil do DF (DRF/Corpatri) mostrou que o militar atuava há pelo menos 15 anos com agiotagem. Durante a operação S.O.S. Malibu, foram presas outras cinco pessoas, incluindo o irmão de Ronie, Thiago Fernandes da Silva, e o pai dos dois, Djair Baía da Silva.

Os irmãos não faziam questão de esconder a vida de luxo que levavam com o dinheiro obtido por meio da prática ilícita. Nas redes sociais, ostentavam viagens internacionais a destinos paradisíacos, lancha, moto aquática e carros de luxo, em especial da marca Porsche. Durante a Operação S.O.S. Malibu, foram apreendidos três veículos da marca.

Para usufruir dessa vida, o militar chegava a cobrar juros que ultrapassavam 10% ao mês; por vezes, no entanto, cobrava os valores semanalmente, ou a cada dez dias. Em caso de atraso no pagamento dos juros, havia uma multa diária, que se somava às dívidas das vítimas. Para obterem os valores, ele e seu irmão ameaçavam as vítimas. Segundo investigação, a figura mais violenta do grupo era Thiago, mas Ronie não ficava para trás.

Áudios obtidos com exclusividade pelo R7 e pela TV Record demonstram a violência com a qual agia o policial militar. Em uma das gravações, ele detalha que está atrás da pessoa em questão e que vai procurá-la em todos os lugares, chegando a ameaçar arrancar seus olhos. “Se eu fosse você, se eu tivesse uma amizade com alguém, ligava e falava ‘pelo amor de Deus, vai lá, acerta com o Ronie. Porque eu peguei dinheiro com o Ronie duas vezes’. Eu com a minha família aqui e você me ligou igual a um vagabundo, pedindo para eu transferir, e eu transferi na hora”, disse no áudio.

Por áudio também, Ronie afirma a outra pessoa: “Dê seu jeito hoje. Nem dinheiro eu quis receber aquele dia, de raiva. Já tem mil que venceu dia 14. Cadê? Nem apareça no evento, suma”. Mais um áudio obtido pelo R7 mostra como os juros cobrados eram abusivos. A pessoa deveria pagar R$ 800 de juros, mas, como atrasou, o valor virou R$ 1 mil. Caso ela não pagasse, Ronie ameaçou vender o veículo deixado com ele como garantia. O militar, conforme apuração da Polícia Civil, determinava que as vítimas passassem procuração de seus veículos e até imóveis e, caso não pagassem as dívidas, Ronie os vendia.

“Segunda-feira tu me transfere R$ 1 mil daqueles juros atrasados. Você teve o mês todinho, passou, seus negócios são para sexta, então na segunda é R$ 1 mil. Senão eu vou passar esse carro para a frente. Eu guardo carro velho, não tem problema, tem cara que deixa carro de R$ 1 milhão comigo e paga certinho. O seu era R$ 800 reais, [agora] vai pagar R$ 1 mil para aprender. E, quando for pagar o outro, vai pagar os juros de novo. Porque é brincadeira, bicho. Oitocentos reais, se você tivesse vigiando carro no meio da rua você ganhava. É muita comodidade. Oitocentos reais, passa 30 dias o cara não tem… Dava R$ 20 por dia. Se estivesse cheirando cola, o povo te dava o dinheiro. Então, já é R$ 1 mil segunda-feira. Senão, depois nem me liga que eu não tenho mais nem carro. (…) Se você não conseguiu R$ 1 mil no mês, você pode suicidar, chefe, sua vida está muito ruim”, afirma Ronie no áudio.

Ronie e outras seis pessoas foram presos temporariamente na última terça-feira (16). Na quinta (18), a polícia pediu que a prisão dele e do irmão, Thiago, fosse convertida em preventiva. “O pedido visa preservar a vida e a integridade física dos endividados e garantir a eficaz instrução, evitando o desaparecimento de bens dados como garantia e bens que serão objeto de medidas judiciais”, detalhou o pedido da PCDF.

A prisão temporária dos investigados venceu no sábado (20). Com isso, quatro pessoas deixaram a prisão. Ronie e Thiago, no entanto, permanecerão presos por tempo indeterminado, já que o Judiciário atendeu ao pedido da PCDF para a conversão da prisão.

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