POR REDAÇÃO 01/02/2026 09h30: A trajetória de Silas Câmara (Republicanos-AM), uma das lideranças mais longevas da bancada evangélica, parece confirmar que, na política brasileira, o passado não apenas condena, como frequentemente se repete. Alvo central da CPI do INSS, o deputado agora precisa explicar como um acordo apadrinhado por ele resultou no repasse de R$ 221 milhões a uma entidade acusada de fraude — enquanto empresas de seus próprios familiares colhiam frutos milionários dessa mesma fonte.
O “Padrinho” das Arrecadações
As investigações da Operação Sem Desconto e da CPI do INSS revelam que Silas Câmara foi o principal articulador da Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura (CBPA) junto ao governo federal. O deputado abriu as portas do INSS para Abraão Lincoln, presidente da entidade, ainda na gestão Bolsonaro.
O resultado do “trabalho de base” foi astronômico: entre 2023 e 2025, a CBPA saltou de 35 mil para 442 mil associados. O crescimento, contudo, é sob suspeita: em auditoria da CGU, 100% dos aposentados da amostra afirmaram que nunca autorizaram os descontos em seus benefícios.
Dinheiro em Família
Enquanto o INSS repassava valores mensais que chegavam a R$ 9,5 milhões para a CBPA, a entidade retribuía a gentileza contratando o clã Câmara. Documentos levantados pelo GLOBO e enviados à CPI detalham o fluxo:
R$ 1,8 milhão destinados a empresas de comunicação (Network Multimídia e Network Filmes) ligadas à cunhada e à sogra do filho do deputado, Heber Câmara.
Pagamentos à Rádio Morena FM, dirigida por outro filho, Elienai Câmara.
Contratação da filha, a advogada Milena Ramos Câmara, para o corpo jurídico da entidade.
O Fantasma dos Múltiplos CPFs
A ironia sobre “qual CPF” o deputado utiliza para assinar seus acordos não é apenas retórica. Silas Câmara carrega um histórico jurídico peculiar: ele já foi réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por um esquema de uso de múltiplos CPFs falsos e identidades distintas, supostamente utilizados para ocultar movimentações financeiras na década de 1990.
Embora o caso tenha gerado robusta investigação, o desfecho seguiu o roteiro da impunidade administrativa: o processo prescreveu. A morosidade da Justiça impediu uma condenação, permitindo que o parlamentar seguisse sua carreira política sem o peso da ficha suja, mas deixando no ar a dúvida sobre a lisura de seus métodos de identificação e gestão.
Fogo Amigo e Guerra Santa
A pressão sobre Silas não vem apenas da Polícia Federal. Sua ex-mulher, a deputada Antonia Lucia (Republicanos-AC), veio a público acusá-lo de financiar uma “vida de farra” com dinheiro desviado dos pescadores.
O escândalo também detonou uma crise na base evangélica. A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) sugeriu que grandes pastores estariam envolvidos no esquema, o que provocou a fúria de Silas Malafaia. O racha expõe que o escândalo do INSS não é apenas um caso de polícia, mas uma bomba relógio no coração da maior bancada temática do Congresso.
Foto: Agência O Globo.





