Antes de mergulharmos na melancolia da realidade, precisamos encarar o grotesco da propaganda. Recentemente, em uma exibição de negacionismo geográfico e científico, as redes oficiais da Casa Branca divulgaram uma imagem gerada por inteligência artificial: Donald Trump marchando solitário, porém ladeado por um pinguim que carrega a bandeira estadunidense em direção a uma montanha com a bandeira da Groenlândia.
O erro é pedagógico em sua ignorância: pinguins não existem no Ártico; são habitantes da Antártida. No entanto, na era da hiper-realidade digital, a verdade científica é secundária à construção da narrativa de poder. Esse “atropelo” geográfico da Casa Branca disparou um gatilho algorítmico global. Milhões, movidos pela curiosidade ou pelo estranhamento, voltaram a pesquisar por “pinguins solitários”, resgatando das profundezas do arquivo digital a cena de Werner Herzog de 2005. O pinguim de IA da Casa Branca, uma mentira propagandística, acabou por nos devolver o espelho do pinguim de Herzog, a verdade da nossa exaustão social. É a partir desse choque entre a propaganda imperialista e o cansaço existencial que iniciamos nossa reflexão marxista.
A alienação e a quebra da engrenagem
Para o materialismo histórico, o pinguim que rompe com o bando no documentário de 19 anos atrás não é um “niilista” por opção metafísica; ele é um corpo cujo instinto (sua “força produtiva” vital) foi colapsado. Na realidade material da nossa época, ele é a representação física do Burnout Social provocado pelo capitalismo.
Marx explicava que, no processo de trabalho alienado, o operário não se reconhece no que produz. No contexto atual, a “emergência de imagens múltiplas” e o “bombardeio midiático” (exemplificado pela imagem absurda da Casa Branca) funcionam como uma superestrutura que fragmenta a consciência. O pinguim que caminha para a montanha é o trabalhador que, diante da impossibilidade de se realizar na vida social e produtiva, entra em um estado de paralisia ou de fuga autodestrutiva.
O “Pinguim Trabalhador” e o Bombardeio Sensorial
Vivemos sob a ditadura do algoritmo, a versão digital da linha de montagem. Se o pinguim de Herzog é bombardeado pela imensidão branca e hostil da Antártida, o proletariado moderno é soterrado por:
Cansaço físico: A extensão da jornada de trabalho via dispositivos móveis.
Cansaço social: A mercantilização das relações humanas.
Contradição capitalista: A propaganda imperialista que cria pinguins onde eles não existem (Ártico/Groenlândia) enquanto ignora o sofrimento dos “pinguins reais” (trabalhadores) que mantêm a estrutura funcionando.
A visão Trotskista: A crise de Direção
A partir de uma lente trotskista, a tragédia do pinguim reside na sua solidão. Ele abandona o bando porque o bando (a sociedade) está em uma marcha automática para lugar nenhum para a reprodução infinita do capital. O pinguim é o sujeito que percebe o absurdo da marcha, mas, sem uma vanguarda ou uma consciência de classe organizada, sua revolta é puramente individual e, portanto, fadada ao isolamento e à morte.
O capitalismo produz “pinguins suicidas” aos milhares. Ele esgota a energia nervosa da humanidade até que a única reação possível seja o desligamento. O burnout não é um erro do sistema; é uma ferramenta de descarte. O sistema prefere que você caminhe sozinho para as montanhas de gelo do que você questione a direção da marcha coletiva.
Contra a estética da desistência
A solução para a crise existencial do “pinguim trabalhador” não está na contemplação estética do seu fim, nem na aceitação das imagens falsas geradas pelo império. A tarefa da classe trabalhadora é denunciar o negacionismo seja ele geográfico ou social.
Não precisamos caminhar para as montanhas para morrer sozinhos no frio da alienação. Precisamos tomar o controle da marcha. Contra o burnout social e a farsa midiática da Casa Branca, a única saída é a organização coletiva para destruir a estrutura que torna a nossa existência insuportável e a nossa realidade uma montagem grosseira de IA.






