
A história política do Amazonas é escrita em capítulos de poder, carisma e, sobretudo, alianças. No entanto, nenhum capítulo é tão emblemático quanto a relação entre Gilberto Mestrinho e Amazonino Mendes. No cenário atual, onde as coligações são voláteis e os “afilhados” costumam devorar seus “padrinhos” ao primeiro sinal de poder, a trajetória dessa dupla soa como um épico de uma era que não volta mais.
O Criador e a Criatura
Em 1983, o Amazonas assistia ao retorno triunfal de Gilberto Mestrinho, o “Cacique”, ao Governo do Estado após os anos de chumbo. Mestrinho não era apenas um político; era um estrategista que entendia o sentimento popular. Foi dele a aposta audaciosa de tirar do anonimato um jovem advogado, então diretor do Departamento de Estradas de Rodagem (DER-AM), para ocupar a cadeira de prefeito nomeado de Manaus. Esse jovem era Amazonino Mendes.
Diferente das indicações técnicas de hoje, aquela era uma união de DNA político. Gilberto não deu a Amazonino apenas um cargo; deu-lhe um método, uma linguagem e a chave do populismo desenvolvimentista que transformaria o estado.
A Lealdade sob Teste
Ao longo das décadas de 1980 e 1990, a relação entre ambos viveu o que se poderia chamar de “simbiose política”. Houve momentos de tensão? Certamente. O brilho de Amazonino, que rapidamente se tornou um gigante eleitoral, por vezes ofuscava o mestre. No entanto, havia um código de ética não escrito que impedia a ruptura definitiva.
Enquanto a política moderna é marcada pelo pragmatismo frio, onde aliados se tornam adversários por uma secretaria ou uma verba de gabinete, Gilberto e Amazonino mantinham uma reverência mútua. Amazonino, mesmo no auge do poder, nunca negou a paternidade política de Mestrinho. E Gilberto, com a sabedoria dos velhos líderes, soube quando recolher suas redes para deixar o pupilo navegar.
O Fim de uma Era
A pergunta que ecoa nos corredores da Assembleia Legislativa e nos cafés da Câmara Municipal de Manaus é: por que não vemos mais isso?
Hoje, a política amazonense é fragmentada. A lealdade foi substituída pelo “conveniência de mandato”. Os novos líderes, são filhos de outra lógica — a da comunicação direta, das redes sociais e da sobrevivência individual. Neles, não há a figura do mentor a quem se deve obediência histórica, mas sim o cálculo eleitoral do momento.
O veredito Histórico
O lançamento de Amazonino por Gilberto talvez tenha sido, de fato, o último grande ato de lealdade romântica na política baré. Foi uma sucessão baseada na continuidade de um projeto de poder que atravessou gerações, algo impensável no atual cenário de “salve-se quem puder” e trocas de partido a cada janela eleitoral.
Gilberto e Amazonino partiram deixando um vácuo. Mais do que líderes, eram símbolos de um tempo onde a palavra empenhada e o apadrinhamento criavam vínculos que nem o tempo, nem as urnas, ousavam apagar. Se foi o último ato, o tempo dirá, mas certamente foi o mais inesquecível deles.




