O corpo de Dilma Ferreira Silva, 47 anos, da coordenação do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), foi sepultado no final da tarde de sábado (23), no Maranhão, Estado de origem de sua família. Ela foi assassinada com o marido, Claudionor Costa da Silva, 42 anos, e Hilton Lopes, 38 anos, amigo do casal. O crime ocorreu na casa de Dilma, no assentamento Salvador Allende, na zona rural de Baião, no Pará. Dilma era atingida pela hidrelétrica de Tucuruí e integrava a coordenação do Movimento dos Atingidos por Barragens na região.
Segundo informações repassadas ao MAB, por volta das 21 horas de quinta-feira (21) chegaram cinco pessoas em três motos na casa de Dilma, onde funcionava um pequeno comércio. Pouco tempo depois, os vizinhos ouviram música muito alta vindo do local, que permaneceu fechado durante toda a noite, o que acharam estranho, pois não era hábito do casal. Na manhã do dia seguinte, o ônibus escolar foi buscar Dilma, pois ela trabalhava como monitora na escola da comunidade. Ao chegarem ao local, encontraram a casa toda revirada e os três corpos. Eles foram amarrados, amordaçados e, ao que tudo indica, mortos a golpes de arma branca. Aparentemente, ela foi torturada e depois teve a garganta cortada. Ainda não se sabe a motivação do crime, pois, embora o histórico de ameaças na região seja considerável, o Movimento não tinha notícias de que Dilma fosse especificamente ameaçada. A área onde ela morava foi fruto de ocupação, mas já estava regularizada pelo Incra. Ainda segundo o MAB, a Polícia trata o crime como “execução”. E, até a tarde de sábado (23), mais de 36 horas após o ocorrido, nenhum suspeito havia sido preso.
Policiais civis e integrantes do MAB já estiveram no local dos crimes. O corpo de Dilma foi liberado pelo Instituto Médico Legal na sexta-feira, às 22 horas, e trasladado para o Maranhão. E o velório e sepultamento ocorreram no final da tarde de sábado (23), em Monte Castelo (MA), cidade de origem da família, ainda segundo o MAB. Militantes do Movimento dos Atingidos por Barragens de várias regiões do Pará se deslocaram para o local para acompanhar as investigações e prestar solidariedade aos familiares, amigos e as lideranças locais. O Movimento também está articulando uma reunião com o secretário de Segurança Pública do Pará, Ualame Machado, para tratar desse caso e demais medidas de proteção aos defensores de direitos humanos no Estado. De acordo com monitoramento da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Dilma é a primeira ativista pelo direito à terra a ser assassinada na Amazônia, em 2019.
Ainda segundo o MAB, Dilma e sua família foram atingidas pela construção da usina de Tucuruí, a terceira maior hidrelétrica do Brasil em potência, inferior apenas a Itaipu binacional e Belo Monte, também no Pará. A hidrelétrica foi inaugurada em 1984, ainda na ditadura militar. Cerca de 40 mil pessoas foram atingidas nas diversas fases de implementação da hidrelétrica, desde o barramento até a construção das eclusas, já nos anos 2000. Dilma Silva teve uma vida de violações – mulher, negra, nordestina, migrante, ribeirinha – agravada pela violência da construção de uma grande barragem. Tucuruí se tornou um caso emblemático da destruição causada pelo modelo energético na Amazônia. Ela consta no relatório do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) de 2010, que identificou a existência de um padrão sistemático de violações de direitos humanos na construção de barragens no Brasil.
Dilma era coordenadora regional do MAB desde 2005. Em 2011, participou do Encontro Nacional das Mulheres Atingidas por Barragens, que reuniu mais de 500 atingidas em Brasília. Na ocasião, as mulheres do MAB foram recebidas pela presidenta Dilma Rousseff. Dilma Silva foi a responsável por entregar à presidenta a carta com as reivindicações das atingidas, que incluía a criação de uma Política Nacional de Direitos dos Atingidos por Barragens (PNAB) e mecanismos de proteção à vida das mulheres da classe trabalhadora. O assentamento Salvador Allende, onde vivia Dilma, está localizado no km 50 da Rodovia BR-422 (Transcametá), que corta o município de Baião, no nordeste do Pará. O assentamento é fruto da ocupação da fazenda Piratininga, feita em 2011 pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Após um despejo feito por pistoleiros, o MAB se juntou ao MST e a Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar (Fetraf) na organização das famílias, que chegaram a ocupar o Incra como forma de pressão.





