O Plenário do Senado aprovou, nesta quarta-feira (27), o projeto que regulamenta os direitos originários indígenas sobre suas terras (PL 2.903/2023). Foram 43 votos a favor e 21 contrários. Do ex-deputado Homero Pereira (1955-2013) e relatado pelo senador Marcos Rogério (PL-RO), o projeto segue agora para a sanção da Presidência da República. A matéria foi aprovada nessa manhã pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e enviada ao Plenário — onde foi aprovado um requerimento para o texto tramitar em regime de urgência.
Entre os principais pontos, o texto só permite demarcar novos territórios indígenas nos espaços que estavam ocupados por eles em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Federal — tese jurídica que ficou conhecida como marco temporal para demarcação de terras indígenas. O projeto também prevê a exploração econômica das terras indígenas, inclusive em cooperação ou com contratação de não indígenas. A celebração de contratos nesses casos dependerá da aprovação da comunidade, da manutenção da posse da terra e da garantia de que as atividades realizadas gerem benefício para toda essa comunidade.
O relator defendeu o texto aprovado na CCJ, ao rejeitar as emendas apresentadas em Plenário. Marcos Rogério afirmou que o tema foi debatido de forma profunda e exaustiva. Segundo o senador, o projeto é uma oportunidade de devolver segurança jurídica ao Brasil do campo. Ele disse que hoje há um sentimento de insegurança e desconforto no meio rural, por conta da indefinição do limite para demarcação. Para o senador, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) em considerar o marco temporal como inconstitucional não vincula o Legislativo.
— Esta é uma decisão política. Hoje, estamos reafirmando o papel desta Casa. Com esse projeto, o Parlamento tem a oportunidade de dar uma resposta para esses milhões de brasileiros que estão no campo trabalhando e produzindo — declarou o relator.
O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, reafirmou seu compromisso com a tramitação da matéria. Ele disse que não houve, por parte da Presidência da Casa, nenhum “açodamento” para apressar a votação. O presidente ainda defendeu que o Congresso Nacional se posicione sobre questões importantes para o país. Pacheco reafirmou seu respeito a todos os setores, negou que a aprovação do projeto seja um enfrentamento ao STF e pediu foco na conciliação e no respeito entre os Poderes.
— Não há sentimento revanchista com a Suprema Corte. Sempre defendi a autonomia do Judiciário e o valor do STF. Mas não podemos nos omitir do nosso dever: legislar — declarou Pacheco.
Segurança
A senadora Tereza Cristina (PP-MS) disse que o projeto é uma forma de dar uma satisfação à sociedade. Ela elogiou a postura firme e decidida dos senadores ao tratar de uma questão “extremamente importante”, que pode ajudar na pacificação do país. O senador Zequinha Marinho (PL-PA) também defendeu a aprovação da matéria, apontando que o texto está há 17 anos sendo discutido no Congresso. Segundo o senador, o país seguirá cuidando de seus povos originários.
— Esta Casa precisa fazer sua obrigação: legislar, para que outros não façam seu papel. Este projeto é importante para o Brasil, por trazer segurança jurídica — afirmou Zequinha.
O senador Omar Aziz (PSD-AM) disse não concordar com uma política ambiental que nega a existência de habitantes na floresta amazônica. Ele citou como exemplo a dificuldade de asfaltar uma rodovia em seu estado. Na visão do senador, a questão do STF “somatiza” com as decisões de políticas ambientais. Omar Aziz ainda acusou a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, de “estreitismo”. De acordo com a senadora Margareth Buzetti (PSD-MT), a aprovação do tema mostra a importância de o Senado legislar.
— O projeto traz paz no campo, paz na cidade. Se continuar do jeito que está, podemos ter até uma guerra civil — declarou a senadora.
Na opinião do senador Jayme Campos (União-MT), a aprovação do marco temporal faz o Senado reassumir suas prerrogativas. Ele disse que o projeto é uma forma de respeitar os produtores rurais e os indígenas, levando segurança e paz ao campo. Na mesma linha, o senador Eduardo Girão (Novo-CE) disse que o projeto é uma forma de trazer segurança jurídica e aproximar o Senado da sociedade.
Para o senador Mecias de Jesus (Republicanos-RR), o Senado está dando uma resposta à população brasileira. Ele disse não ver inconstitucionalidade no projeto de lei. Segundo Soraya Thronicke (Podemos-MS), a política atual do governo deixa indígenas e produtores insatisfeitos. A prova, disse a senadora, é que não havia indígenas nas galerias do Plenário do Senado para pedir a rejeição do projeto.
Veja como votou cada senador
| NOME | PARTIDO | UF | COMO VOTOU |
| Alan Rick | UNIÃO | AC | Sim |
| Marcio Bittar | UNIÃO | AC | Sim |
| Sérgio Petecão | PSD | AC | Ausente |
| Fernando Farias | MDB | AL | Sim |
| Renan Calheiros | MDB | AL | Sim |
| Rodrigo Cunha | PODEMOS | AL | Sim |
| Eduardo Braga | MDB | AM | Não |
| Omar Aziz | PSD | AM | Não |
| Plínio Valério | PSDB | AM | Sim |
| Davi Alcolumbre | UNIÃO | AP | Sim |
| Lucas Barreto | PSD | AP | Sim |
| Randolfe Rodrigues | REDE | AP | Não |
| Angelo Coronel | PSD | BA | Ausente |
| Jaques Wagner | PT | BA | Não |
| Otto Alencar | PSD | BA | Não |
| Augusta Brito | PT | CE | Não |
| Cid Gomes | PDT | CE | Não |
| Eduardo Girão | NOVO | CE | Sim |
| Damares Alves | REPUBLICANOS | DF | Sim |
| Izalci Lucas | PSDB | DF | Ausente |
| Leila Barros | PDT | DF | Não |
| Fabiano Contarato | PT | ES | Não |
| Magno Malta | PL | ES | Sim |
| Marcos do Val | PODEMOS | ES | Sim |
| Jorge Kajuru | PSB | GO | Sim |
| Vanderlan Cardoso | PSD | GO | Sim |
| Wilder Morais | PL | GO | Sim |
| Ana Paula Lobato | PSB | MA | Não |
| Eliziane Gama | PSD | MA | Não |
| Weverton | PDT | MA | Sim |
| Carlos Viana | PODEMOS | MG | Sim |
| Cleitinho | REPUBLICANOS | MG | Sim |
| Rodrigo Pacheco | PSD | MG | Presidente |
| Nelsinho Trad | PSD | MS | Ausente |
| Soraya Thronicke | PODEMOS | MS | Sim |
| Tereza Cristina | PP | MS | Sim |
| Jayme Campos | UNIÃO | MT | Sim |
| Margareth Buzetti | PSD | MT | Sim |
| Mauro Carvalho Junior | UNIÃO | MT | Sim |
| Beto Faro | PT | PA | Não |
| Jader Barbalho | MDB | PA | Ausente |
| Zequinha Marinho | PODEMOS | PA | Sim |
| Daniella Ribeiro | PSD | PB | Sim |
| Efraim Filho | UNIÃO | PB | Sim |
| Veneziano Vital do Rêgo | MDB | PB | Ausente |
| Fernando Dueire | MDB | PE | Sim |
| Humberto Costa | PT | PE | Não |
| Teresa Leitão | PT | PE | Ausente |
| Ciro Nogueira | PP | PI | Sim |
| Jussara Lima | PSD | PI | Não |
| Marcelo Castro | MDB | PI | Não |
| Flávio Arns | PSB | PR | Sim |
| Oriovisto Guimarães | PODEMOS | PR | Sim |
| Sergio Moro | UNIÃO | PR | Sim |
| Carlos Portinho | PL | RJ | Ausente |
| Flávio Bolsonaro | PL | RJ | Ausente |
| Romário | PL | RJ | Não |
| Rogerio Marinho | PL | RN | Sim |
| Styvenson Valentim | PODEMOS | RN | Sim |
| Zenaide Maia | PSD | RN | Não |
| Confúcio Moura | MDB | RO | Não |
| Jaime Bagattoli | PL | RO | Sim |
| Marcos Rogério | PL | RO | Sim |
| Chico Rodrigues | PSB | RR | Ausente |
| Dr. Hiran | PP | RR | Sim |
| Mecias de Jesus | REPUBLICANOS | RR | Sim |
| Hamilton Mourão | REPUBLICANOS | RS | Sim |
| Luis Carlos Heinze | PP | RS | Ausente |
| Paulo Paim | PT | RS | Não |
| Esperidião Amin | PP | SC | Sim |
| Ivete da Silveira | MDB | SC | Ausente |
| Jorge Seif | PL | SC | Sim |
| Alessandro Vieira | MDB | SE | Não |
| Laércio Oliveira | PP | SE | Sim |
| Rogério Carvalho | PT | SE | Não |
| Astronauta Marcos Pontes | PL | SP | Ausente |
| Giordano | MDB | SP | Ausente |
| Mara Gabrilli | PSD | SP | Ausente |
| Eduardo Gomes | PL | TO | Sim |
| Irajá | PSD | TO | Ausente |
| Professora Dorinha Seabra | UNIÃO | TO | Sim |
Supremo
Na visão do líder do governo, senador Jaques Wagner (PT-BA), é inócuo votar um projeto que tem um sentido contrário ao que o STF decidiu como constitucional. O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) disse que o projeto traz questões que vão além do marco temporal. Ele citou que o texto prevê até explorar e plantar transgênicos nas terras indígenas.
— Isso é inconstitucionalidade flagrante. Retroceder a demarcação é mais que inconstitucional. Por óbvio, será acionada a Suprema Corte — argumentou Randolfe.
Para a senadora Eliziane Gama (PSD-MA), o projeto tenta modificar o texto da Constituição de 1988. Ela lembrou que, na semana passada o STF já decidiu a questão, ao considerar o marco temporal como inconstitucional. Na visão da senadora, é desumano usar os povos indígenas como disputa entre o Legislativo e o Supremo. Eliziane ainda afirmou que a aprovação marca “um dia triste” para o meio ambiente.
— Se é mudança na Constituição, tem que ser PEC [proposta de emenda à Constituição]. O que estamos votando hoje, o STF claramente derrubou por nove votos a dois. Este projeto está fadado ao veto presidencial — registrou a senadora.
O senador Alessandro Vieira (MDB-SE) também registrou que a tese do marco temporal já foi reconhecida como inconstitucional pelo Supremo. Ele disse que a votação do projeto não passava de “um teatro, muito bonito para as redes sociais”, mas que não geraria consequências jurídicas, pois um projeto de lei não poderia fazer mudanças constitucionais.
— Que ganho há em colocar esta Casa em mais um constrangimento? – questionou o senador.
Indígenas
Para o senador Weverton (PDT-MA), há erros em vários governos “em não enfrentar o tema como deve ser enfrentado”. Ele disse que há mais de mil famílias desalojadas de suas terras no Maranhão sem indenização. Segundo o senador, os indígenas não querem mais terra, mas estrutura. Ele disse que votou a favor do projeto, mesmo reconhecendo pontos inconstitucionais, porque o Brasil precisa de harmonia e incentivo ao crescimento.
Por outro lado, a senadora Zenaide Maia (PSD-RN) apontou que existem muitos interesses em torno das terras indígenas. Ela falou que os povos indígenas estão sendo “esmagados”, por serem vulneráveis. Para a senadora, o tema precisaria ser debatido na Comissão do Meio Ambiente (CMA) e na Comissão dos Direitos Humanos (CDH).
— É o lucro e o interesse econômico acima da vida. Quem está ganhando hoje é quem financia os garimpos e os grandes latifúndios. Isso é uma página infeliz da nossa história — afirmou a senadora.
Destaques
Alessandro Vieira apresentou um destaque para deixar claro que as terras já demarcadas não correrão risco de perder sua condição de reserva indígena. O senador Fabiano Contarato (PT-ES) também apresentou um destaque, para evitar o contato forçado de povos isolados. Marcos Rogério, como relator, opinou pela rejeição de todos os destaques. Levados a votação, todos os destaques foram rejeitados.
Fonte: Agência Senado
Marco Temporal é aprovado por 43 a favor no plenário do Senado. Vitória do Brasil e dos brasileiros. pic.twitter.com/HRmZCauJEE
— MARCOS ROGÉRIO (@MarcosRogerio) September 27, 2023





