Para a arquiteta e urbanista Melissa Toledo, que atua há décadas com patrimônio cultural, planejamento urbano e ensino superior, a primeira palavra quando se fala sobre o papel da mulher na profissão é “conquista”. E ela começa lembrando do contexto histórico local:
“Estamos numa região que, há menos de 30 anos, sequer tinha curso de Arquitetura e Urbanismo. O nosso primeiro curso só chegou ao Amazonas em 1992. Ou seja, somos uma categoria jovem, que ainda está construindo sua identidade regional”, destaca.
Apesar do cenário desafiador, as estatísticas apontam avanços significativos. Segundo o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR), cerca de 63% dos registros profissionais no país hoje são femininos. “Isso mostra que a maioria dos profissionais formados atualmente são mulheres. É, sem dúvida, uma grande conquista”, avalia Melissa.
Ela também aponta a ampliação da atuação feminina em áreas estratégicas como o planejamento urbano, habitação social, sustentabilidade e patrimônio cultural — setores intimamente ligados à realidade amazônica. “As questões urbanas mais justas, inclusivas e sustentáveis estão abrindo espaço para arquitetas que atuam com esse foco, especialmente na nossa região, que exige um conhecimento territorial, ambiental e cultural muito específico”, afirma.
Ainda assim, os obstáculos persistem. “A desigualdade de gênero no mercado é uma realidade. Muitas mulheres ainda recebem menos, têm menos chances de promoção e, muitas vezes, enfrentam a desvalorização do seu conhecimento técnico”, pontua. Segundo Melissa, ainda é comum encontrar resistência quando projetos são liderados por mulheres. “Existe desconfiança, sim. E infelizmente isso faz parte do pacote que a gente carrega por ser mulher nessa profissão.”
Além das dificuldades estruturais, como a logística desafiadora do interior do estado, o acesso precário a materiais e tecnologias, e a ausência de políticas públicas voltadas à valorização regional da profissão, há também o peso da vida pessoal. “Como em todas as profissões, a sobrecarga emocional é real. A gente vive tentando conciliar a vida profissional com a demanda familiar, porque, no fim das contas, o cuidado ainda recai majoritariamente sobre nós”, desabafa.
A arquiteta também faz questão de mencionar a violência de gênero que afeta mulheres de todas as áreas: “A mulher arquiteta e urbanista também está inserida nesse contexto de violência urbana. Isso nos torna ainda mais vulneráveis, especialmente quando atuamos em áreas isoladas ou em contextos sociais marcados por desigualdade e insegurança.”
Melissa, que já atuou em obras de revitalização como a da Avenida Eduardo Ribeiro, em Manaus, e em programas como o PAC Cidades Históricas, ressalta a importância de reconhecer as microviolências do dia a dia: “Já escutei comentários do tipo ‘bonitinha, mas até que é inteligente’. Hoje, com 52 anos, sei que isso é uma agressão verbal. Na época, não tinha esse entendimento. Mas é exatamente por isso que precisamos continuar falando sobre isso.”
Por fim, ela destaca que atuar como arquiteta e urbanista no Amazonas também representa uma oportunidade única. “Nossa realidade é fluvial, indígena, ribeirinha, quilombola, extrativista… Isso tudo representa um desafio técnico e cultural enorme — mas também é uma chance de contribuir para modelos urbanos únicos no Brasil. De forma justa e sustentável.”
Neste Dia da Mulher Arquiteta e Urbanista, o olhar de Melissa Toledo nos convida não só a celebrar os avanços, mas a continuar desenhando caminhos mais igualitários — dentro e fora dos projetos arquitetônicos.