Manaus, AM – A médica Juliana Brasil Santos (CRM 10771-AM), identificada como a responsável por prescrever a superdosagem de adrenalina que resultou na morte de Benício Xavier de Freitas, de 6 anos, no Hospital Santa Júlia, responderá às investigações em liberdade. A decisão foi tomada pela Justiça de Manaus através da concessão de um habeas corpus preventivo.
O caso, ocorrido no último domingo (23), está sendo investigado pela Polícia Civil do Amazonas como homicídio doloso qualificado, conforme informou o delegado Marcelo Martins.
Superdosagem de 15 Vezes o limite
Benício foi internado no dia 22 com tosse seca e suspeita de laringite. De acordo com o relato da família, a Dra. Juliana Santos determinou a aplicação de adrenalina por via intravenosa. A prescrição orientava a administração de 9 miligramas do medicamento, uma dosagem que, segundo especialistas, é até 15 vezes superior à quantidade máxima recomendada para uma criança com o peso e a idade de Benício.
Médica Geral usava carimbo de Pediatra
A Dra. Juliana Brasil Santos se formou em 2019 pelo Centro Universitário Nilton Lins. Uma consulta ao Conselho Regional de Medicina do Amazonas (CRM-AM) confirmou que ela possui registro apenas como médica geral, sem qualquer especialização reconhecida em Pediatria, apesar de ter utilizado um carimbo que mencionava a especialidade.
O Hospital Santa Júlia confirmou em nota que o atendimento foi realizado exclusivamente pela Dra. Juliana.
Depoimentos e Investigação
A médica e uma técnica de enfermagem, que também participou do atendimento, prestaram depoimento nesta sexta-feira (28) no 24º Distrito Integrado de Polícia (DIP). O Hospital Santa Júlia também abriu uma sindicância interna para apurar o incidente.
A denúncia da morte da criança após a aplicação da dosagem incorreta de adrenalina foi formalizada pelos pais na terça-feira (25).
O portal mantém o espaço aberto para manifestação da Dra. Juliana Brasil Santos, do Hospital Santa Júlia, e do Centro Universitário Nilton Lins sobre os fatos citados nesta reportagem.
Pandemia em 2019, ano de formação da médica
A pandemia de COVID-19 expôs de forma dramática as vulnerabilidades do sistema de saúde de Manaus e teve um impacto profundo e complexo na formação dos estudantes de medicina na cidade.
Embora o pico da crise em Manaus tenha ocorrido em 2020 e 2021 (com a cidade enfrentando o colapso do sistema de saúde, especialmente pela falta de oxigênio), o ano de 2019 marca o início do período que precedeu o estouro da pandemia, cujas consequências e as respostas do setor de saúde e educação se tornaram evidentes logo em seguida.
Manaus foi um dos epicentros da crise da COVID-19 no Brasil, com uma situação de colapso hospitalar que chocou o país e o mundo.
Colapso do Sistema: O sistema de saúde chegou ao limite, com escassez crítica de recursos, incluindo leitos de UTI, medicamentos e, notoriamente, o oxigênio medicinal. A falta de oxigênio foi um dos aspectos mais trágicos, levando pacientes à morte por asfixia.
Exaustão Profissional: Os profissionais de saúde, incluindo médicos e enfermeiros, enfrentaram um cenário de exaustão (burnout), sobrecarga de trabalho e a dor de perder pacientes pela falta de recursos básicos. Relatos de médicos descrevem a sensação de estar “na guerra sem ter armas”.
Necessidade de Reforço: A gravidade da situação demandou um reforço urgente de pessoal, mobilizando profissionais de outras regiões do país (como a Força Nacional do SUS) e a antecipação da formatura de estudantes da área da saúde.
Prejuízos Acadêmicos: Estudos com acadêmicos de saúde no Amazonas apontaram que o ensino totalmente remoto foi percebido por muitos como prejudicial ao desempenho acadêmico, com relatos de professores despreparados para a modalidade e estratégias educacionais ativas ineficazes.
Saúde Mental: A mudança abrupta na rotina, o isolamento social, e a preocupação com a transmissão do vírus e a saúde familiar impactaram a saúde mental dos estudantes, gerando aumento do estresse e sofrimento psíquico.
A formação médica em Manaus precisou se adaptar rapidamente a essa realidade de crise, gerando desafios e, paradoxalmente, experiências cruciais.
Antecipação de formatura e atuação imediata
Diante da necessidade urgente de mais profissionais, universidades como a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e a Universidade Nilton Lins anteciparam a outorga de grau de estudantes dos anos finais dos cursos de saúde (Medicina, Enfermagem e Farmácia).
Reforço Precoce: Esses recém-formados ingressaram na linha de frente do combate à pandemia, muitas vezes participando de programas de extensão ou processos seletivos para reforçar a atenção primária e os hospitais de referência.
Experiência Intensa: Para esses profissionais, a pandemia representou uma imersão prática intensa e precoce em uma situação de medicina de desastres, aprendendo a lidar com a alta mortalidade, a gestão de recursos escassos e a pressão emocional extrema desde o início de suas carreiras.





