OS BONS E OS MAUS- Por Lourenço Braga

Estive, por estes dias, às voltas com um hospital de Manaus, em espaçoso prédio e com atendimento prestado por competentes profissionais, desde o médico, eminente doutor Eduardo Abreu com toda a equipe que o auxilia em cirurgias ortopédicas e no período que se segue para recuperação do paciente, a partir da doutora Francis Rosa, até o mais humilde dos servidores que, em plantões diurnos ou noturnos entregam parte importante de suas vidas a cuidar de semelhantes seus em momentos de dor, de angústia e de apreensão.

Foi que se deu na reparação da fratura de fêmur de minha esposa, proveniente de uma queda a quando do preparo de um alimento na cozinha de casa. Felizmente posso proclamar a competência, o cuidado e o profissionalismo de quantos nisso se envolveram, desde o doutor Luís Henrique Carvalho, noivo de minha neta Maria Fernanda, que realizou o primeiro atendimento, ainda domiciliar, e a condução para o lugar apropriado, os filhos Alessandro, Juliana e Lourenço, a nora Evelyn, até os servidores da UTI do hospital Nilton Lins, para onde Raquel foi transferida após a cirurgia realizada com sucesso mercê da bondade divina. Trata-se de batalha que se iniciou na noite do sábado, 10, e que agora s prorroga com apoio incondicional de Dina Rosa e de Andréia Soares, igualmente dedicadas e carinhosas, e com doutora Nadime que inicia as sessões de fisioterapia indispensáveis ao restabelecimento da normalidade.

Estou a destacar o que aqui faço por duas razões fundamentais. A primeira, porque é preciso proclamar o que esses anjos vestidos de branco, de azul claro, de azul escuro, de verde e até de preto realizam, no anonimato da vida hospitalar, e até fora dela, para diminuir a dor e devolver a alegria da vida. São os bons !

A segunda tem a ver com o fato de que no dia 14 deste janeiro eu me encontrava no ambiente impessoal da UTI, vendo sofrimentos e esforços médicos e clínicos para atendimento digno. Obriguei-me, então, a relembrar que já escrevi, neste espaço, nos idos de 2021, que 14 de janeiro é dia de luto para o Amazonas, “porque marca a tristeza insuperável e imperdoável do início da falta de oxigênio nos hospitais públicos de Manaus, inclusive nos centros de terapia intensiva, então absolutamente lotados por pacientes portadores de consequências da COVID-19, que a todos assustava em níveis incontroláveis, mundo afora, com o vírus maldito atacando, fazendo sofrer e causando a morte, como se nos estivéssemos aproximando do final dos tempos.” Volto novamente ao tema porque continuo considerando “que não temos direito de esquecer a barbárie que se instalou nas casas que deveriam ser de defesa e de preservação da saúde humana, com pacientes que rogavam, certamente em prantos que não controlavam e enquanto tinham forças para gritar a dor, por um socorro que não chegava, por um simples ar que lhes permitisse o primário e primeiro dos direitos da vida: respirar.”

Jamais devemos esquecer que “nas ruas, parentes em desespero igual choravam impotência, enquanto outros corriam, igualmente descontrolados, para filas intermináveis que se formaram em frente a empresas que vendem oxigênio engarrafado e que se punham de volta ao hospital na esperança de chegarem a tempo de salvar a vida pela qual tanto lutavam, muitas vezes em vão, daquele ou daqueles a quem amavam.” Como afirmei naquele texto, “não tive a desventura, sob bençãos de Deus, de viver esse tempo infernal vitimando nenhum parente, portanto não estou falando de dores no próprio coração, mas não consigo ficar indiferente” a tantos que, a cada 14 de janeiro, mesmo transcorridos cinco anos, estarão em lágrimas por entes queridos que, não fora a incúria dos que tinham o dever funcional, além de humano, de evitar o desastre, talvez ainda pudessem estar em seu convívio, ou, pelo menos, não teriam conhecido o desfazimento da vida terrena com requintes de inimaginável crueldade.

Não consigo avaliar o desespero de médicos, residentes, estagiários, enfermeiros, assistentes, auxiliares, tantos que dedicam suas vidas, muitas vezes em jornadas que se estendem por todo o dia, a salvar vidas de quem sequer conhecem, na maioria das vezes, ao se sentirem incapazes de exercer esse sagrado mister. De que adiantavam todos os aparelhos modernos, de tecnologia avançada, ligados a tantos fios e cabos, que compõem unidades de tratamento intensivo – que tantos serviços prestam à vida humana e à saúde, inclusive com a reanimação cardiorrespiratória, popularmente chamada de ressuscitamento – se ao paciente faltava o ar que as máquinas lhe deveriam fornecer? Mesmo as comprovadamente adquiridas em lojas de venda de vinho. Não havia conhecimento científico capaz de lhes permitir o trabalho e o que restava era, certamente, assistirem atônitos, revoltados, angustiados, sofridos, ao fim tão desumano, inimaginável até então, de tantas vidas, umas seguidas de outras, ou até muitas ao mesmo tempo, como se ali se tivesse instalado um inferno. Não podemos perder essa memória e não devemos concordar, silentes, com o fato de que tanto depois nenhum dos responsáveis, de maior ou menor poder na estrutura estatal, responde ou respondeu por tão bárbara omissão criminosa. São os maus !

O que fizeram do Amazonas foi, em 14 de janeiro de 2021, exemplo de vergonha e falência do sistema público de saúde para o Brasil e para o mundo inteiro. E tudo por descaso ou descuido, para dizer o mínimo, dos que tinham o dever de não permitir tal descalabro, tanto mais quando, na condição de agentes públicos superiores, haviam sido prevenidos pela empresa fornecedora do precioso elemento essencial à rede de saúde de que sua capacidade de produção mostrava-se progressiva e perigosamente comprometida com o crescimento da demanda. Um desastre anunciado e não evitado que nos envergonhou a todos diante do mundo e lançou o pesar e a dor da perda irreparável sobre milhares de famílias. Tanta a incúria, a crença na imunidade e na impunidade, o desrespeito, a desumanidade, que qualquer desses maus gestores, mais ou menos graduados, sequer teve a dignidade de pelo menos hipotecar solidariedade às famílias de suas vítimas, preferindo talvez contentar-se com enganosa ideia de que o pedestal onde julgam estar é inatingível por simples humanos não ungidos por falsas e falhas “divindades”. Continuam gozando da liberdade física, que a da alma certamente jamais lhes voltará a pertencer Repito, então, que 14 de janeiro é dia de luto para a história do Amazonas.

 

Lourenço Braga, do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas lourencodossantospereirabraga@hotmail.com

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