O desafio das coincidências: A Operação “Erga Omnes” e o xadrez político de Manaus

Opinião

No tabuleiro político do Amazonas, a lógica muitas vezes cede lugar ao inusitado. A recente Operação Erga Omnes, deflagrada pela Polícia Civil, trouxe à tona um cenário que desafia as probabilidades estatísticas e coloca em xeque narrativas construídas a duras penas.

O contraste dos fatos
Há poucos dias, o prefeito David Almeida ocupava os holofotes para assegurar que sua gestão era um exemplo de “limpeza e ausência de escândalos”. No entanto, a prisão de uma servidora comissionada de sua extrema confiança, sob suspeitas graves de ligação com o crime organizado, criou um curto-circuito imediato entre o discurso e a realidade dos fatos.

Na política, a imagem é o patrimônio mais valioso, e o “governo limpo” de David agora enfrenta sua prova de fogo mais amarga: explicar como o núcleo de licitações e o gabinete municipal tornaram-se alvos de uma investigação dessa magnitude.

O fator “Timing”
O que torna o episódio ainda mais digno de análise é o contexto institucional. A Polícia Civil é um braço do Governo do Estado, comandado por Wilson Lima e pelo vice-governador Tadeu de Souza. É impossível ignorar que a operação ocorre exatamente no vácuo de uma ruptura política ruidosa: a migração de Tadeu do Avante para o Progressistas (PP), consolidando sua independência de David Almeida e sua provável candidatura ao Governo.

Diante desse quadro, surgem perguntas naturais que qualquer observador da cena local faria:

Seria a operação apenas o resultado de um trabalho técnico de longo prazo que amadureceu em um momento politicamente sensível?

Ou estaríamos presenciando o uso estratégico do timing institucional para desidratar uma narrativa eleitoral adversária?


Embora as instituições devam ser respeitadas em sua autonomia, o cruzamento de datas — do discurso de “pureza” de David à operação comandada pelo grupo de Wilson e Tadeu — é o que na ciência política chamamos de “remota coincidência”.

Independentemente das motivações de bastidor, o fato concreto é que a bandeira da ética na gestão municipal foi atingida em cheio. Resta saber se David Almeida conseguirá reconstruir seu discurso ou se o grupo governamental estadual deu o xeque-mate que buscava antes mesmo da abertura oficial das urnas.

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