EDITORIAL: A Balança desequilibrada de David – onde o luto vira palanque e a tragédia alheia, esquecimento

Enquanto chorava suas perdas diante das câmeras, David Almeida “esqueceu” de mencionar a tragédia na Avenida Djalma Batista.

Manaus assistiu, nesta última segunda-feira, a um espetáculo de conveniência que beira o escárnio. No lançamento de sua pré-candidatura ao Governo do Estado, o prefeito David Almeida subiu ao palanque empunhando a própria dor como um escudo político. Ao evocar os 30 dias do falecimento de seu filho recém-nascido para se blindar de críticas e investigações, David cruzou a linha tênue que separa o luto humano da exploração emocional da tragédia.

O que se viu foi a tentativa deliberada de transformar uma perda pessoal em capital político, enquanto, convenientemente, a memória do prefeito sofre um apagão seletivo sobre as tragédias que ocorrem sob sua caneta.

O silêncio que grita
Enquanto chorava suas perdas diante das câmeras, David Almeida “esqueceu” de mencionar a tragédia na Avenida Djalma Batista. Onde estava a sensibilidade do “pai de família” para com a biomédica Giovana Ribeiro e seu bebê, ceifados em um acidente que expôs as feridas abertas de uma cidade sem ordem e sem fiscalização?

Não houve, no discurso do prefeito, uma palavra de conforto, um pedido de desculpas ao mototaxista envolvido ou qualquer menção às famílias que, há oito meses, choram sem o amparo de um marketing político de luxo. Para o prefeito, a dor parece ter hierarquia: a dele serve para comover eleitores; a do povo é um “incidente” que deve ser varrido para debaixo do tapete do esquecimento.

A covardia do privilégio
É um ato de covardia retórica usar um berço vazio para fugir de perguntas sobre corrupção e falhas de gestão. Ao dizer que “não se dobra diante da injustiça” por estar em luto, o prefeito insulta cada manauara que enfrenta a morte nas filas das UBSs ou a insegurança nas ruas sem ter um microfone para desabafar.

O governante que pede empatia ao povo, mas não a oferece às vítimas de sua própria omissão, não é um líder; é um ator. A vida de um motoboy ou de uma grávida no asfalto da Djalma Batista tem o mesmo peso espiritual e humano que qualquer linhagem política.

Manaus não precisa de um “mártir de ocasião”, mas de um gestor que entenda que o poder é um sacerdócio de cuidado, não um refúgio para vitimização. Se o prefeito deseja falar de “justiça”, que comece pedindo perdão às famílias que sua gestão ignorou. Do contrário, seu luto continuará sendo visto pelo que pareceu ser nesta segunda-feira: uma estratégia fria, calculada e, acima de tudo, profundamente desrespeitosa com todas as outras mães e pais de Manaus que não têm o direito de esquecer.

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