A biografia de Samuel Klein (1923-2014), o imigrante polonês que sobreviveu ao Holocausto para criar a maior rede de varejo do Brasil, as Casas Bahia, ganhou contornos de escândalo policial sete anos após sua morte. Investigações detalhadas, iniciadas pela Agência Pública em 2021, lançaram luz sobre um suposto lado oculto e sombrio de sua história, onde o poder financeiro e o silêncio teriam escondido crimes graves contra a dignidade de dezenas de jovens.
O ESQUEMA E O “MODUS OPERANDI”
As acusações descrevem um esquema sofisticado e duradouro de exploração sexual, pedofilia e estupro, que teria operado entre os anos 1980 e 2010.
Vítimas vulneráveis: Relatos de mulheres que hoje são adultas indicam que os abusos começaram quando elas tinham entre 9 e 16 anos. Elas eram chamadas de “samuquetes”.
Atração e Silêncio: O empresário teria atraído meninas de famílias pobres com a promessa de presentes, como dinheiro, calçados e cestas básicas. As investigações indicam que esse auxílio era uma forma de aliciamento e, posteriormente, de silenciamento das famílias.
Locais dos Crimes: Os abusos ocorriam em locais como um quarto anexo ao seu escritório na sede histórica da empresa em São Caetano do Sul (SP), em sua casa de praia em Angra dos Reis e em iates.
USO DA ESTRUTURA DA EMPRESA
O ponto mais alarmante das denúncias é o suposto uso deliberado da infraestrutura corporativa das Casas Bahia para facilitar os crimes.
Funcionários Cúmplices: Seguranças e secretárias teriam atuado no transporte e no aliciamento das menores, além de supostamente gerenciarem os pagamentos destinados a silenciar as famílias das vítimas.
Pagamentos em Dinheiro: Dinheiro para as jovens e para a rede de apoio seria retirado diretamente dos caixas das lojas e registrado de forma mascarada na contabilidade.
CRIMES DO FILHO E CONDENAÇÃO RECENTE
As investigações sobre Samuel ganharam força após denúncias semelhantes contra o seu filho, Saul Klein. Saul foi formalmente acusado e condenado (em instâncias recentes) a pagar uma indenização de R$ 30 milhões por tráfico de pessoas para fins de exploração sexual, um esquema que guardava fortes semelhanças com o atribuído ao pai.
SITUAÇÃO JURÍDICA E LEGADO
Como Samuel Klein faleceu em 2014, ele não pode ser processado criminalmente (a punibilidade é extinta com a morte). No entanto, o caso gerou:
Ações de Reparação: Processos cíveis contra o espólio da família e a empresa buscam indenizações para as vítimas.
O “Caso K”: Um podcast investigativo e série de reportagens detalharam como o poder econômico teria silenciado essas denúncias por anos.
Impacto Legislativo: O caso inspirou projetos de lei para ampliar o prazo de prescrição de crimes sexuais contra menores.
A família Klein e o Grupo Casas Bahia (antiga Via Varejo) geralmente negam conhecimento das práticas ou afirmam que a empresa hoje segue rigorosos padrões éticos, distanciando-se do histórico pessoal dos fundadores.
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