O cenário político do Amazonas neste início de abril de 2026 apresenta um fenômeno de “memória seletiva” nos corredores do poder e, principalmente, nas redes sociais. Enquanto portais ligados à Secretaria de Comunicação de Manaus (Semcom) disparam ataques contra a ascensão de Roberto Cidade (União Brasil) ao governo interino, os arquivos da Assembleia Legislativa (ALE-AM) revelam que os mesmos personagens que hoje sustentam Cidade foram os responsáveis por abrir as portas do Palácio da Compensa para David Almeida em 2017.
No centro dessa engrenagem está o deputado estadual Adjuto Afonso (União Brasil). Decano e conhecedor profundo das articulações de bastidor, Adjuto é o elo vivo entre dois momentos cruciais da história recente do estado. Em 22 de dezembro de 2016, ele foi um dos 17 votos decisivos que elegeram David Almeida presidente da Assembleia, derrotando a ala tradicional do então PMDB. Sem o voto e o apoio de Adjuto, David jamais teria chegado à linha de sucessão que o transformou em governador interino meses depois, após a cassação de José Melo.
A ironia que salta aos olhos em 2026 é o papel de “fiel da balança” que Adjuto Afonso volta a desempenhar. O parlamentar, que na época era um entusiasta da “rebelião” liderada por David Almeida sob as bênçãos do senador Omar Aziz, agora é um dos principais pilares de sustentação da candidatura de Roberto Cidade na eleição indireta. O método, o rito e até os articuladores são praticamente os mesmos, o que torna os ataques da atual gestão municipal um exercício de contradição política.
Para analistas de bastidor, o posicionamento de Adjuto Afonso expõe a fragilidade da narrativa de “acordão” ou “golpe” propagada pelos críticos de Roberto Cidade. Se a eleição indireta de 2026 carece de legitimidade, como afirmam os interlocutores da prefeitura, a própria origem da carreira executiva de David Almeida estaria sob suspeita, já que foi pavimentada exatamente pela mesma engenharia parlamentar conduzida por deputados experientes como Adjuto.
A trajetória de Adjuto Afonso simboliza a continuidade do poder no Amazonas: ele sobreviveu a legislaturas, mudou de partidos, mas manteve a capacidade de identificar o vácuo de poder e preenchê-lo com soluções negociadas no plenário. Ao apoiar Roberto Cidade hoje, Adjuto apenas repete a “receita do sucesso” que aplicou com David Almeida no passado, provando que, na política baré, o “caminho das pedras” para o governo quase sempre passa pelo voto de confiança de quem domina as cadeiras da ALE-AM.
Enquanto a guerra de narrativas ferve nos grupos de mensagens, o silêncio sobre o papel de deputados como Adjuto na criação do “fenômeno David” em 2017 é estratégico para a Semcom. No entanto, para o eleitor atento, fica o registro: o mesmo grupo que hoje é chamado de “sistema” pelos ataques da prefeitura, foi o grupo que deu a David Almeida a caneta, o orçamento e a vitrine necessária para que ele se tornasse o político que é hoje.





