Com a proximidade das eleições de 2026, o cenário político do Amazonas e de Rondônia ganha o retorno de um personagem repetitivo e bem conhecido de todos nós: a promessa de pavimentação do “trecho do meio” da BR-319. A história se repete com pompa, anúncios oficiais e discursos inflamados em visitas presidenciais a Manaus. Mas antes de registrar o seu voto baseado no sonho da trafegabilidade definitiva, é preciso separar a propaganda de palanque da realidade dos fatos.
O recado é claro: o eleitor não pode — e não deve — ser enganado mais uma vez.
A realidade dos fatos contra o discurso de campanha
O anúncio de que a rodovia será uma “estrada modelo” e de que as barreiras jurídicas foram superadas serve muito bem para inflar discursos e gerar cliques, mas esbarra na dura realidade da engenharia e da burocracia estatal.
A verdade técnica que os políticos omitem é uma só: o asfalto no trecho do meio não sairá este ano e nem tão cedo.
O que estamos vendo em 2026 é o início de obras de arte especiais — como a construção e liberação de pontes sobre rios e igarapés — e a abertura de alguns canteiros de apoio. A pavimentação dos mais de 400 quilômetros do miolo da estrada ainda depende de projetos executivos complexos, estudos de elevação de pista para enfrentar o rigor do inverno amazônico e de uma pesada engenharia de drenagem. Nada disso se resolve ou se constrói em poucos meses de campanha eleitoral. Serão anos de trabalho pela frente. E ainda teremos a definição de quem tocará o barco em 2026.
O uso político de uma demanda histórica
A ligação terrestre entre Manaus e Porto Velho não é um capricho; é uma necessidade humanitária, de abastecimento e de direito à mobilidade para o povo do Norte. Justamente por tocar em uma ferida histórica da nossa região, a rodovia é utilizada ciclicamente como a maior moeda de troca eleitoral da Amazônia.
Os mesmos grupos políticos que hoje aparecem assinando ordens de serviço e prometendo prazos milagrosos são os que, nos últimos anos, assistiram passivamente ao vai e vem de liminares e ao fatiamento de licenças sem apresentar soluções estruturais duradouras. O que se vende hoje como “fita de inauguração” é, na verdade, apenas a assinatura de contratos e projetos que ainda vão tramitar lentamente pelos gabinetes de Brasília.
Como o eleitor deve se proteger?
Para não ser feito de bobo em mais um pleito, o cidadão precisa mudar a forma como consome essas promessas. Em vez de aplaudir o lançamento de “pedras fundamentais”, o eleitor deve cobrar:
- Cronogramas Reais: Obras na Amazônia possuem a barreira do período de chuvas. Exija prazos realistas e jogue no lixo as promessas de conclusão expressa.
- Fiscalização Antes do Asfalto: Se o governo promete uma “estrada verde”, as bases de segurança e fiscalização ambiental precisam ser instaladas antes que o asfalto chegue, evitando que o crime organizado destrua a floresta ao redor da via.
- Olho no Dinheiro Público: Editais lançados às pressas em anos eleitorais costumam ser pratos cheios para aditivos financeiros inexplicáveis e paralisações judiciais logo após a apuração das urnas.
A BR-319 só deixará de ser um problema quando for tratada como uma política de Estado séria, contínua e técnica, e não como o principal cabo eleitoral de governos locais e federais a cada dois ou quatro anos. Fique de olho: o asfalto prometido em maio não pode virar o barro esquecido em novembro.





