O Escândalo da UEA: Cidade tira R$ 100 milhões da educação para cobrir rombo de Wilson Lima na Amazonprev e recebe temporal de críticas

Com esse Decreto, Cidade pode estar se distanciando de sua reeleição. Entenda.

Foto: Assessoria de Comunicação

A canetada do governador Roberto Cidade, que confiscou R$ 100 milhões da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) através dos decretos nº 54.200 e 54.220, soou nos bastidores políticos como um verdadeiro tiro no pé ou um atestado de que ele desistiu de concorrer à reeleição em 2026. Retirar uma dinheirama dessas da maior instituição de ensino do estado, em pleno ano eleitoral, é o tipo de movimento que só encontra duas explicações: ou o governador está pessimamente assessorado, ou o desespero fiscal do Estado atingiu o nível do colapso total.

A justificativa oficial é a velha desculpa técnica da “queda de arrecadação” e a urgência de um ajuste preventivo para cumprir o teto de gastos. A realidade nua e crua, no entanto, é bem mais indigesta: o governo está tirando dinheiro de bolsas de estudo de jovens cientistas e do custeio dos campi do interior para tentar tapar o rombo bilionário da Amazonprev.

💸 A Herança Maldita: O Operador de Wilson Lima e o Golpe Oculto

Esse escândalo não nasceu ontem; ele tem DNA conhecido e digitais carimbadas dentro do Palácio da Compensa. Trata-se de uma herança maldita da gestão de Wilson Lima (União Brasil). Em junho de 2024, a diretoria da Amazonprev autorizou aportes altamente suspeitos em Letras Financeiras de bancos privados, despejando R$ 50 milhões em títulos sem garantias no Banco Master, de Daniel Vorcaro — instituição que acabou liquidada pelo Banco Central após colapsar financeiramente.

Na época, Roberto Cidade não era um mero espectador: ele presidia a Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam) e dava as cartas como principal aliado da base governista.

Documentos sigilosos obtidos pela reportagem do jornal O GLOBO revelam as entranhas de uma operação clandestina. O negócio entrou na mira da Polícia Federal (PF) na Operação Cine Consenso, que apura fraudes e propinas para dar sobrevida ao banco quebrado. A farsa foi operada da seguinte forma:

  • Sem Rastro e Sem Regras: A aplicação de R$ 50 milhões ocorreu sem autorização colegiada do fundo de previdência e sem qualquer análise de risco formal, atropelando as regras criadas em 2021 para proteger o dinheiro dos servidores do Amazonas.
  • Reunião Fantasma: O próprio Comitê de Investimentos da Amazonprev emitiu relatório apontando a ausência total de registros formais ou atas de deliberação da diretoria sobre a compra dos papéis podres do Master. Um processo interno de responsabilização teve que ser aberto para apurar o rastro do sumiço documental.

👤 Quem é o Verdadeiro Dono da Canetada?

O homem que assinou e avalizou esse jogo de azar com o dinheiro dos aposentados tem nome, sobrenome e fortes ligações partidárias: Ary Renato Vasconcelos de Souza.

O histórico dele entrega o jogo de compadrio político:

  • Contador da Campanha: Ary Renato foi o contador oficial da campanha de reeleição do governador Wilson Lima em 2022 e se filiou ao União Brasil logo em seguida.
  • O Prêmio: Após a campanha, ele ganhou cargos no governo, passando pela Casa Civil até ser plantado como gerente de Administração e Finanças da Amazonprev em janeiro de 2023.
  • O Mecanismo: Em junho de 2024, ainda como gerente, Ary Renato autorizou a transferência dos R$ 50 milhões para o Banco Master. Apenas um mês depois de fechar o negócio sem análise de risco, ele foi premiado com a promoção para diretor-presidente da fundação, cargo onde operou por dez meses até ser exonerado em maio de 2025 e substituído por Francisco Evilazio Pereira (então secretário de Justiça de Wilson Lima).

Com a subsequente quebra e liquidação do Banco Master pelo Banco Central, o dinheiro dos servidores estaduais virou fumaça. Agora, a conta desse crime financeiro chegou, e Roberto Cidade escolheu a universidade pública para pagar o pato.

🔬 O Desmonte na Prática: Quem Paga a Conta?

O impacto do decreto de Cidade dentro da UEA é devastador. A reitoria, comandada pelo professor André Zogahib, tenta equilibrar-se em uma corda bamba, buscando negociações desesperadas com a Sefaz para tentar salvar o básico: o funcionamento das salas de aula, os editais vigentes e os restaurantes universitários.

Nas pontas, o estrago já é visível:

  • Pesquisa Sufocada: Projetos cruciais em biotecnologia, saúde pública e meio ambiente correm risco de paralisação total por falta de reagentes e insumos de laboratório.
  • Corte na Carne: Há uma ameaça real de atrasos e suspensões no pagamento de bolsas de iniciação científica, monitoria e extensão.
  • Abandono do Interior: Os núcleos universitários que levam desenvolvimento e saberes aos municípios mais distantes do estado foram os primeiros a sentir o baque do arrocho.

A reação foi imediata. O SIND-UEA e o Diretório Central dos Estudantes (DCE) incendiaram os campi com assembleias e já organizam um calendário de paralisações e protestos em frente à sede do Governo e da Aleam. O argumento dos estudantes é cirúrgico: é inadmissível sacrificar o futuro dos jovens para cobrir fraudes investigadas pela PF.

⚖️ O Paradoxo Eleitoral de Roberto Cidade em 2026

Do ponto de vista estritamente político, a manobra é um desastre de relações públicas. Cidade assumiu o governo por meio de uma eleição indireta na Aleam após a renúncia de Wilson Lima. Ele herdou a máquina pública e o favoritismo natural que o cargo traz, mas levou junto o esqueleto financeiro criminoso que estava trancado no armário da Amazonprev.

  • A Metralhadora da Oposição: Ao assinar o confisco contra a UEA, Cidade virou a vidraça perfeita. Seus adversários políticos ganharam de bandeja o discurso pronto do “destruidor da educação”, munição pesada que será usada à exaustão nos debates que se aproximam.
  • A Rasteira no Funcionalismo: O arrocho não para na UEA. O governo também está bloqueando R$ 215 milhões de fundos que deveriam financiar microempresas para conseguir pagar a folha do funcionalismo. Com terceirizados da saúde protestando por salários atrasados e a segurança cobrando melhorias, o governador entra no ano eleitoral sem margem para fazer agrados ou inaugurar grandes obras.

Até o momento, Roberto Cidade vinha se consolidando nas pesquisas de opinião, ocupando o segundo lugar nas intenções de voto, logo atrás do senador Omar Aziz. Resta saber se a musculatura da máquina estadual será suficiente para suportar o desgaste de um escândalo que mistura polícia, rombo previdenciário sem ata e o sucateamento da maior universidade do Amazonas. Se a assessoria do governador achou que o povo esqueceria R$ 100 milhões tirados da educação para pagar operação fantasma do União Brasil, eles erraram feio no cálculo.

Vários Políticos e Pré-candidatos se manifestaram pelas Redes Sociais e criticaram o Decreto.

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