Se você achava que a política baré tinha limites para a frieza, o senador Eduardo Braga (MDB) acaba de reescrever o manual. A “pernada de veludo” que isolou Marcelo Ramos (PT) não foi um mero desentendimento de bastidores: foi um movimento cirúrgico de sobrevivência eleitoral.
Para quem olha de fora, parece incoerência ver Braga escantear um aliado histórico alinhado ao Planalto para paparicar o prefeito David Almeida (Avante) e seu fiel escudeiro, Renato Júnior. Mas, no tabuleiro de xadrez do senador, cada peça sacrificada tem um propósito muito claro.
A coluna Chumbo Grosso revela os reais motivos por trás dessa rasteira política de mestre:
- O fantasma das duas vagas em 2026 e o pragmatismo dos votos
Em 2026, o eleitor amazonense vai digitar dois números para o Senado na urna eletrônica. Eduardo Braga sabe que a sua reeleição está longe de ser um passeio no parque: o sentimento conservador no Amazonas continua forte, e nomes de peso da direita, como o deputado federal Capitão Alberto Neto, pontuam muito bem nas pesquisas.
Nesse cenário, carregar Marcelo Ramos — que, apesar de ter o carimbo de Lula, patina nas pesquisas e carrega a rejeição do eleitorado antipetista — seria carregar uma “âncora” pesada demais. Braga fez a conta fria: precisava se livrar do peso ideológico da esquerda para abrir espaço na chapa para quem realmente tem máquina, caneta e voto para entregar.
- O preço da reeleição: David Almeida e a máquina de Manaus
A bajulação explícita de Braga a David Almeida e a Renato Júnior não é gesto de amizade: é negócio político do mais alto nível.
- O “Pedágio” de Manaus: Sem o apoio da máquina da Prefeitura de Manaus, a reeleição de Braga ao Senado corre o risco real de naufragar na capital.
- A cabeça de Ramos como oferenda: Para consolidar sua aliança com David Almeida e evitar que o prefeito resolvesse fechar uma chapa paralela e hostil, Braga entregou a cabeça de Marcelo Ramos em uma bandeja de prata. A mensagem foi clara: “Eu rifo o PT para garantir que a sua estrutura esteja comigo.”
- O “Coringa” Marcos Rotta e as saídas de David
Ao neutralizar Marcelo Ramos, Braga não apenas agrada a David Almeida, mas também pavimenta o caminho para os cenários de sobrevivência do próprio prefeito.
Se a pré-candidatura de David ao governo do estado continuar perdendo fôlego nas pesquisas de intenção de voto, o prefeito precisará de uma saída honrosa:
- Cenário A: David recua para apoiar Omar Aziz (PSD) logo no primeiro turno em troca de blindagem e espaço futuro.
- Cenário B: O grupo decide lançar um nome de consenso para a segunda vaga de senador ou para a vice de Omar (com a filha de David, Aryel Almeida, ou o experiente Marcos Rotta correndo por fora).
Sem Marcelo Ramos ocupando o espaço na chapa oficial, o tabuleiro fica totalmente livre para Braga negociar essas acomodações de última hora com David Almeida e Renato Jr.
Marcelo Ramos jogou o jogo da fidelidade partidária e da ideologia de Brasília; Eduardo Braga jogou o jogo do poder bruto e da calculadora eleitoral no Amazonas. No fim, Ramos virou a moeda de troca perfeita para Braga comprar o apoio de David Almeida e tentar garantir mais oito anos de mandato em Brasília. Uma rasteira clássica, fria e extremamente profissional.
Análise de Ronaldo Aleixo – Jornalista e Especialista em Políticas Públicas (UNINTER_PR) e Direito Digital LGPD pela PUCRS.





