A história não mentia em 2017 e continua sem mentir hoje. Naquela eleição, depois de passar anos descendo a lenha no cacique do MDB, Marcelo Ramos engoliu as próprias palavras para virar vice na chapa de Braga. A contradição foi tão gritante que rendeu o carimbo histórico que ficou gravado na sua testa: “ajoelhou no milho”. Na época, ficou escancarado até onde a fome por poder podia ir.
Anos depois, o filme se repete de forma idêntica. Poucos dias antes da convenção, Ramos reapareceu inflamado em plenárias e redes sociais, acusando Braga de armar fake news, mandar recados pelos bastidores e tentar impor um tapetão para atropelar o PT local. O discurso parecia de resistência contra o comando do senador.
Bastou uma ordem vir de Brasília para a valentia desaparecer em segundos. No dia do evento, Ramos subiu ao palanque sorridente, abraçou o antigo desafeto e pediu votos para o mesmo político que atacava 24 horas antes.
Para completar esse grande circo, o cozido político ganhou um novo ingrediente de peso: David Almeida. O ex-prefeito, que construiu sua carreira acenando para o eleitorado conservador e evangélico, agora caminha de mãos dadas com a mesma aliança, declarando apoio escancarado à reeleição de Eduardo Braga ao Senado.
A lógica é simples e escancara o pragmatismo sem limites do jogo eleitoral no Amazonas. Se Braga passa a rasteira nos próprios aliados, Ramos muda de lado ao sabor do vento e David Almeida se junta ao banquete para garantir seus próprios acordos de poder, o eleitor fica sem qualquer garantia.
Essa união de conveniência dura apenas até a apuração das urnas, e quem confia nesse teatro costuma ser o único a pagar a conta.
Texto: Ronaldo Aleixo.





