Em um desfecho sem precedentes na história das eleições brasileiras, a TV Globo cancelou o último debate presidencial do primeiro turno de 2026, marcado para a noite desta quinta-feira (1º de outubro). A decisão, tomada a menos de uma hora do início da transmissão, não foi causada por problemas técnicos ou rebeldia isolada de campanhas, mas inviabilizada por determinações liminares das cortes superiores que, na undécima hora, alteraram as regras do encontro.
A queda do debate foi motivada por duas frentes: a ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), proibiu a emissora de manter um púlpito vazio com o nome de Luiz Inácio Lula da Silva; paralelamente, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a inclusão obrigatória do candidato Renan Santos (Missão). Somado às ausências já esperadas de Lula e Flávio Bolsonaro, a Globo se deparou com um imbróglio jurídico insuperável a minutos de ir ao ar.
O episódio, contudo, transcende a televisão. Ele serve como o exemplo mais nítido de uma crise crônica na política nacional contemporânea: a hiperjudicialização do processo eleitoral.
Para uma parcela significativa da sociedade, juristas e analistas, decisões de última hora que ditam o funcionamento de um evento jornalístico e eleitoral configuram uma clara interferência indevida. Cresce a percepção — e a adoção de termos como “juristocracia” ou “ditadura do Judiciário” — de que as cortes superiores acumularam um poder desproporcional. Sob essa ótica, o STF e o TSE ultrapassam suas prerrogativas constitucionais para microgerenciar a política, muitas vezes sem instâncias superiores às quais a sociedade ou as empresas possam recorrer em tempo hábil.
Em contrapartida, há quem defenda que as cortes apenas respondem às constantes provocações dos próprios partidos políticos, que judicializam tudo. Para esses defensores, intervir no púlpito ou na lista de convidados é uma defesa constitucional para garantir a “paridade de armas” e impedir que emissoras e candidatos mais fortes criem cenários favoráveis à revelia da lei.
Nessa escalada de tensões e polarização, tornou-se frequente que críticos classifiquem a atuação atual do Judiciário como algo comparável — ou até “pior” — que a censura do regime militar (1964-1985). Historiadores e cientistas políticos, contudo, fazem uma separação técnica importante: enquanto o regime militar operou sob ruptura institucional, fechamento do Congresso e suspensão de eleições diretas, o que o Brasil de 2026 vive é um choque institucional profundo operando por dentro da democracia formal. As instituições estão funcionando, mas em permanente atrito, testando os limites de poder dos Três Poderes.
Embora o Brasil já tenha visto debates esvaziados — como a recusa de FHC nos anos 90, o cancelamento por força maior de saúde de Bolsonaro em 2018, e a emblemática “cadeira vazia” deixada por Lula em 2006 (estratégia que agora o TSE fez questão de proibir) —, o 1º de outubro de 2026 marca uma nova era.
O silêncio forçado nos estúdios da TV Globo nesta quinta-feira é, paradoxalmente, o sinal mais ruidoso do nível extremo a que chegou o embate entre a política e as togas no Brasil.





