Por: Ronaldo Aleixo / Coluna de Opinião – O Brasil abriga a maior população católica do planeta. Sozinho, o país concentra cerca de 13% de todos os fiéis do mundo. Além da expressão numérica demográfica, a fé no país manifesta-se em eventos de proporções monumentais que movimentam o turismo e a economia de regiões inteiras: o Círio de Nazaré em Belém reúne milhões de romeiros; a Festa do Divino Pai Eterno em Trindade atrai multidões devotas; e o Santuário Nacional de Aparecida recebe milhões de peregrinos anualmente.
Apesar dessa força avassaladora e da vitalidade da piedade popular brasileira, a pergunta que precisa ser feita sem rodeios é: por que o Brasil deixou de ser prioridade para os papas e para o Vaticano?
O vácuo de atenção no maior mercado da fé
Assistimos a itinerários papais que priorizam nações secularizadas ou com populações católicas inexpressivas, enquanto a maior nação católica da Terra é sistematicamente deixada em segundo plano. Sob o argumento de que a diplomacia vaticana deve focar em “periferias” ou em “diálogo com o laicismo”, a Cúria Romana comete um erro estratégico e pastoral grave.
A força espiritual do povo brasileiro não depende do aval contínuo de Roma para pulsar com intensidade única no cenário global, como demonstram as trajetórias de Santa Dulce dos Pobres e de São Frei Galvão. Enquanto o centro decisório da Igreja insiste em olhar de soslaio para o seu maior celeiro de fiéis, a santidade germina no solo nacional alimentada por obras sociais colossais e por uma piedade popular genuína que mobiliza romarias e milagres cotidianos. A devoção inabalável ao “Anjo Bom da Bahia” e a fé depositada nas pílulas do franciscano paulista provam que o Brasil não é apenas o gigante estatístico do catolicismo, mas a sua alma viva e pulsante — uma vitalidade comunitária que o Vaticano escolhe ignorar ao relegar a nação ao segundo plano de suas rotas diplomáticas e pastorais.
Enquanto o centro decisório em Roma ignora a necessidade de presença e apoio contínuo ao Brasil, o campo religioso nacional atravessa uma rápida transição. O avanço acelerado do protestantismo e o enfraquecimento institucional do catolicismo em diversas regiões brasileiras são consequências diretas desse abandono pastoral. A falta de protagonismo e de visitas pontifícias regulares sinaliza uma desvalorização da base que sustenta a própria estrutura global da Igreja.
O risco da alienação institucional
A alienação do Vaticano em relação ao Brasil revela uma visão eurocêntrica e burocrática da hierarquia católica. A sensação de abandono é tal que a provocação se torna inevitável: se no futuro um cardeal brasileiro for eleito Papa, será que ele manteria a tradição de dar as costas à sua própria terra natal para atender aos interesses da burocracia romana?
Tratar a maior comunidade de fiéis do mundo com desdém ou como um “território já garantido” que não exige atenção e investimento de presença é uma postura que beira a vergonha institucional. O turismo religioso brasileiro atua como um pilar essencial para a cultura e economia local, movido pela devoção de um povo que mantém a fé viva sem receber o devido reconhecimento da liderança máxima de sua instituição.
Uma mudança de postura exigida
O Brasil não pode continuar sendo visto como mera estatística nos relatórios anuais da Santa Sé. O povo católico brasileiro e suas manifestações de fé merecem respeito, presença física e prioridade nas agendas pontifícias. Ignorar o Brasil é ignorar o coração pulsante do catolicismo contemporâneo.
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