O jornalismo político no Amazonas está passando por uma metamorfose. Se antes o debate ficava restrito às colunas formais e aos ternos alinhados dos grandes telejornais, hoje a informação ganha as redes com uma nova roupagem: a da sátira. No centro dessa transformação está a jornalista Cynthia Blink, que utiliza o humor não apenas para entreter, mas como uma poderosa ferramenta de crítica social e análise de poder.
O Poder da Ironia nas Redes Sociais
Recentemente, um vídeo de Blink viralizou ao simular um “Amigo Oculto” entre os principais nomes da política amazonense. À primeira vista, parece apenas um esquete cômico, mas uma análise mais profunda revela o que os acadêmicos chamam de “Autocomunicação de Massa”. Segundo o sociólogo Manuel Castells, hoje o indivíduo tem o poder de processar e difundir mensagens que antes eram monopólio das grandes empresas de mídia.
Blink faz exatamente isso. Ao presentear o prefeito David Almeida com uma “muleta” (após uma suposta “rasteira” política) ou Roberto Cidade com uma camisa do Vasco (em alusão ao estigma de “eterno vice”), ela traduz o complexo jogo de bastidores para uma linguagem que qualquer cidadão entende.
A Desconstrução do Poder
O conceito de “Capital Simbólico”, de Pierre Bourdieu, explica bem esse fenômeno. Políticos investem fortunas para construir uma imagem de autoridade inabalável. Quando uma jornalista utiliza a sátira para ridicularizar essas figuras, ela promove uma “descapitalização” dessa autoridade. O político desce do pedestal e passa a ser visto sob a ótica da falibilidade.
Nesse cenário, o vídeo de Blink funciona como uma carnavalização (conceito de Mikhail Bakhtin): no carnaval, as hierarquias se invertem e o povo ri dos seus governantes. No jornalismo digital de Cynthia, a “entrega de presentes” é, na verdade, uma prestação de contas irônica sobre alianças rompidas e promessas futuras.
Diversidade e Identidade Regional
A diversidade no jornalismo digital não está apenas em quem fala, mas em como se fala. Ao usar termos como “tambaqui” e focar em personagens estritamente locais, Blink fortalece a identidade do Amazonas. Ela prova que o jornalismo local não precisa ser uma cópia pobre dos centros nacionais; ele pode ter voz, gíria e cor próprias.
O sucesso desse formato mostra que o público está cansado do hermetismo das redações tradicionais. O espectador quer entender a política, mas quer fazer isso sem o peso de uma linguagem técnica e distante.
O Novo Papel do Jornalista
Cynthia Blink representa o jornalista que é, ao mesmo tempo, apurador e performer. Seus conteúdos são baseados em fatos — os prints de notícias que aparecem em seus vídeos comprovam o rigor da apuração —, mas a entrega é lúdica.
Em suma, as novas vertentes do jornalismo amazonense são vitais para a democracia. O uso do humor permite que a população fiscalize e se interesse ativamente pela gestão estadual. A diversificação dos formatos digitais apresenta-se como o principal suporte para a participação cidadã nos tempos atuais.

Ronaldo Aleixo

É jornalista (DRT 96423/SP), filiado à Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e ao Sindicato dos Jornalistas de Roraima (Sinjoper). Tecnólogo em Marketing pela Uninter-AM, possui pós-graduações em Jornalismo Digital, Jornalismo Investigativo, Docência do Ensino Superior e Gestão de Mídias Sociais, além de um MBA em Ciência Política: Relações Institucionais e Governamentais, todos pela Uninter-PR. Atualmente, é pós-graduando em Direito Digital pela PUC-RS, com conclusão e defesa de TCC previstas para janeiro de 2026.





