Arena do Descaso: O Futebol Amazonense despejado pela “Fábrica de Eventos” e a sombra dos Contratos Milionários

Enquanto a final do Barezão é empurrada para estádio menor, investigações do TCE-AM miram explosão orçamentária e falta de transparência em parcerias entre o poder público e a produtora de eventos.

O torcedor amazonense acordou com um gosto amargo nesta semana. O palco que deveria abrigar a apoteose do futebol local, a imponente Arena da Amazônia, construída com padrão FIFA ao custo de centenas de milhões de reais, estará de portas fechadas para a final do campeonato estadual. O motivo? O gramado já tem dono: a montagem de estrutura para o show “Bodega do Pablo”, orquestrado pela onipresente produtora Fábrica de Eventos.

A decisão da Federação Amazonense de Futebol (FAF) e do Governo do Estado de transferir o jogo decisivo para o Estádio Carlos Zamith, com capacidade e infraestrutura infinitamente menores, acendeu um rastilho de pólvora nas redes sociais e nas bancadas de imprensa. O sentimento é de despejo. “É um tapa na cara do torcedor e do clube local”, desabafou um cronista esportivo que preferiu não se identificar. “A Arena se tornou um elefante branco que só serve ao lucro privado, enquanto o futebol local mendiga espaço”.

A prioridade do Cifrão

O episódio expõe uma ferida antiga e dolorida na gestão do patrimônio público em Manaus: quem realmente manda na Arena? Oficialmente administrado pelo Estado, o estádio parece operar sob uma agenda “privatizada”. Críticos denunciam que a Fábrica de Eventos detém uma espécie de “preferência perpétua” nas datas nobres, sufocando o calendário esportivo.

A lógica é puramente comercial. Um grande show de arrocha gera receitas imediatas de aluguel e visibilidade política que um jogo do campeonato local, muitas vezes com público modesto, não consegue replicar aos olhos dos gestores. O custo dessa escolha, porém, é o enfraquecimento da identidade esportiva do estado. “Estamos trocando a chance de fortalecer nossos clubes e atrair torcedores por algumas noites de glamour e lucro para poucos”, afirma um ex-dirigente de clube local.

A sombra dos escândalos: O fator Manauscult

A polêmica da Arena é apenas a ponta do iceberg de uma relação muito mais complexa e opaca entre o ecossistema de grandes eventos e o poder público em Manaus. A Fábrica de Eventos, embora não seja a única, é frequentemente citada em debates sobre a transparência no uso de verbas culturais.

O nome da empresa ecoa nos corredores do Tribunal de Contas do Amazonas (TCE-AM), que atualmente conduz investigações sobre a explosão orçamentária da Fundação Municipal de Cultura (Manauscult). Entre 2022 e 2025, os gastos pagos pela fundação saltaram de R$ 33,8 milhões para assombrosos R$ 156,2 milhões, um aumento de 361% em quatro anos.

Esse crescimento vertiginoso é o combustível para o Processo nº 15380/2025, que mira, entre outros eventos, o festival Sou Manaus Passo a Paço. O festival, que deveria ser um marco da cultura popular gratuita, transformou-se em uma arena de disputas judiciais após denúncias de privatização de espaços públicos e falta de clareza nos cachês e patrocínios, levantando dúvidas sobre favorecimento a grandes produtoras.

Aditivos “Relâmpago” e a Blindagem de agenda

A pressa em consolidar contratos também gera suspeitas. Em janeiro de 2026, pouco antes de prazos eleitorais críticos, o Diário Oficial registrou uma movimentação atípica na Manauscult: a prorrogação e aditamento de contratos que somaram quase R$ 38 milhões em apenas 24 horas. Para a oposição na Câmara Municipal de Manaus, essas renovações visam “blindar” a agenda de eventos contra futuras trocas de gestão, garantindo a continuidade dos mesmos fornecedores e produtoras de sempre.

A Justiça já interveio, determinando, sob pena de multa diária, que a Prefeitura divulgue todos os contratos e notas fiscais desde 2022, rotulados por críticos como “caixas-pretas” que escondem os custos reais de cada espetáculo.

O Futuro em Jogo

A final no “Zamith” é, portanto, muito mais que um problema logístico. É o símbolo de uma cidade onde o lucro do entretenimento privado parece atropelar o interesse coletivo e o patrimônio cultural esportivo. Enquanto a Fábrica de Eventos monta seu palco na Arena sob a proteção de contratos milionários e pouca transparência, o futebol amazonense segue como inquilino em sua própria casa, esperando o dia em que o apito final do jogo decisivo volte a ecoar no principal palco do estado.

 

O espaço está aberto para que os citados na matéria possam se manifestar caso queiram.

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