A política externa brasileira sob o governo Lula atravessa um momento de contradições que desafiam a lógica dos direitos humanos universais. Enquanto o presidente não economiza adjetivos para classificar o retorno de Donald Trump à Casa Branca como uma ameaça democrática e um renascimento do “nazifascismo”, o Palácio do Planalto adota um silêncio obsequioso — e por vezes cúmplice — diante das atrocidades cometidas pelo regime dos aiatolás no Irã, como a execução sumária do atleta Navid Afkari.
Dois pesos, duas medidas
A disparidade no tom das declarações é evidente. Ao se referir ao cenário político dos Estados Unidos, Lula frequentemente utiliza uma régua moral rígida:
- Sobre Trump: O presidente brasileiro já declarou que o comportamento do republicano é “muito ruim para a democracia” e chegou a associar sua vitória ao “retorno do nazismo e do fascismo com outra cara”. Para Lula, as instituições americanas estão sob risco e o diálogo com o “imperador do mundo” é difícil por questões ideológicas.
- Sobre o Irã: No caso de Navid Afkari e de outros manifestantes condenados à morte, a régua muda. A diplomacia brasileira, sob as ordens de Lula, recua para o confortável biombo da “não ingerência em assuntos internos”. O silêncio após a execução de Afkari — que incluiu torturas e negação de direitos básicos — expõe uma omissão que a oposição e entidades de direitos humanos classificam como “passada de pano” ideológica.
A estratégia do “Equilíbrio” Injustificável
Recentemente, o Brasil chegou a condenar a repressão no Irã em instâncias da ONU, mas o gesto veio acompanhado de uma abstenção em votos cruciais. A justificativa do Itamaraty é que sanções contra Teerã “prejudicam os mais pobres” e que o Irã é um parceiro estratégico no bloco dos BRICS.
Entretanto, analistas apontam que essa “cautela” desaparece quando o alvo é o Ocidente. Ao criticar Trump com veemência e silenciar sobre a forca iraniana, o governo envia uma mensagem perigosa: a de que a democracia e a vida humana são valores negociáveis, dependendo de quem é o parceiro comercial ou o aliado geopolítico no momento.
O custo da Omissão
A execução de Afkari não foi apenas uma questão doméstica iraniana, mas um teste de coerência para líderes que se dizem defensores da justiça social. Para os relatores da ONU, o silêncio de nações influentes como o Brasil serve apenas para encorajar o regime de Teerã a continuar usando a pena de morte como ferramenta de controle populacional.
Lula, que se projeta como um líder global da paz, parece ignorar que a paz sem direitos humanos é apenas a quietude imposta pelo medo. Ao apontar o dedo para o “fascismo” ao norte, mas ignorar o carrasco ao oriente, o Brasil abdica de sua autoridade moral no cenário internacional.





