Concursada em 2011 na Polícia Civil, a Advogada Anabela Cardoso construiu sua carreira longe das delegacias e dentro dos gabinetes mais restritos do atual prefeito de Manaus.

A prisão de Anabela Cardoso Freitas na Operação Erga Omnes, deflagrada pela Polícia Civil do Amazonas nesta sexta-feira (20), trouxe à tona uma trajetória profissional que desafia a lógica do serviço público tradicional. Embora ostente o cargo de investigadora de polícia desde 2011, os registros oficiais sugerem que o distintivo de Anabela passou mais tempo guardado do que em operação. Na prática, sua verdadeira “patrulha” ocorreu nos corredores do poder, sempre ao lado de um único nome: David Almeida.

Uma Década de cessões e gabinetes

Desde que ingressou nos quadros da segurança pública, a carreira de Anabela seguiu o rastro da ascensão política de Almeida. A análise de Diários Oficiais revela uma servidora “híbrida”, que alternou entre a estabilidade do cargo concursado e funções de estrita confiança política:

Na Assembleia Legislativa (Aleam): Enquanto David presidia a Casa, Anabela não investigava crimes; ela geria a máquina administrativa como Diretora-Geral Adjunta.

No Governo Interino: Em 2017, quando Almeida assumiu o comando do Estado, ela foi alçada à Casa Civil, o coração político de qualquer gestão.

Na Prefeitura de Manaus: Com a eleição de David em 2020, ela assumiu a Chefia de Gabinete Pessoal — o posto de maior proximidade com o prefeito — antes de ser movida para a estratégica Comissão Municipal de Licitação (CML).

O “Superpoder” da Dualidade

O que a Polícia Civil investiga agora é se essa “dupla identidade” funcional serviu a propósitos ilícitos. A suspeita é que Anabela funcionava como o “elo” perfeito: possuía o conhecimento interno dos mecanismos de investigação (pela PC) e o controle operacional de processos de contratação (pela Prefeitura).

A investigação apura se houve vazamento de informações sigilosas e lavagem de dinheiro para favorecer o núcleo político da organização criminosa citada no inquérito. Enquanto o efetivo da Polícia Civil enfrenta defasagem histórica, uma de suas agentes atuava, na prática, como o filtro final de quem entrava e saía do gabinete do prefeito.

O que dizem os citados

A Prefeitura de Manaus emitiu nota oficial afirmando que não é alvo da operação e que nem o prefeito David Almeida, nem a estrutura administrativa do município, integram o objeto da investigação. A gestão classificou como “inaceitável” a tentativa de setores políticos de distorcer fatos para criar narrativas mentirosas.

“A atual administração mantém compromisso absoluto com a legalidade. Qualquer servidor eventualmente investigado responderá individualmente por seus atos, nos termos da lei”, diz trecho da nota.

A defesa de Anabela Cardoso Freitas ainda não se manifestou detalhadamente sobre as acusações, mas, por se tratar de uma fase de investigação sob sigilo, a servidora goza da presunção de inocência até o trânsito em julgado de eventual condenação. O espaço segue aberto para que os citados justifiquem a predominância de cargos comissionados em detrimento da atuação policial direta de Anabela nos últimos 13 anos.

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