A cena midiática em Manaus vive um momento de intensa e complexa disputa que transcende os conflitos editoriais. O embate revela uma crise profunda sobre a legitimidade, a verdade e os limites da liberdade de expressão, colocando o jornalismo profissional contra figuras que usam plataformas de comunicação para exercer um poder retórico muitas vezes desvinculado da checagem de fatos e da responsabilidade legal.
Os incidentes recentes, que mobilizaram a Justiça local e o Supremo Tribunal Federal (STF), escancaram a necessidade urgente de distinguir a apuração responsável da mera retórica com fins de poder.
A primeira frente de batalha emergiu de um trágico acidente no Rio Negro, que resultou na morte de três membros de uma família ribeirinha. Enquanto o Grupo Diário de Comunicação se dedicava à cobertura investigativa e à busca por fatos concretos, o jornalista e blogueiro Ronaldo Tiradentes, irmão do empresário envolvido, utilizou seu microfone para uma contraofensiva agressiva.
A tática adotada foi a do desvio de foco: levantar suspeitas sobre a vítima e atacar a imprensa, questionando aspectos do caso sem, contudo, mencionar a realização do exame toxicológico pelo seu familiar envolvido.
Essa conduta é típica de quem, habituado a acusar e julgar sem ser questionado, vê na imprensa investigativa uma ameaça real ao seu monopólio da narrativa. O jornalismo profissional, ao cruzar dados e buscar o contraditório, força o poderoso a ser confrontado pela mesma sociedade que ele antes manipulava. Neste cenário, a verdade incomoda porque retira do poderoso o privilégio de ser o único a narrar o evento.
Um segundo caso ilustra a batalha travada nos tribunais para definir os limites entre a liberdade de imprensa e a responsabilidade civil. A Cenarium Agência de Notícias sofreu um revés significativo no STF, que rejeitou seu recurso e manteve a condenação imposta pela Justiça do Amazonas a favor da empresária e comunicadora Cileide Moussallem Rodrigues.
O ministro André Mendonça determinou que a Cenarium deve retirar matérias ofensivas do ar e pagar uma indenização de R$ 20 mil. A decisão reforça que a condenação não configura censura prévia (princípio defendido pela ADPF 130), mas sim a responsabilização civil por conteúdos falsos e ofensivos já publicados. O STF penaliza, assim, o abuso do direito de informar. A decisão serve como um forte indicativo de que mesmo veículos de comunicação não estão imunes a serem processados por ultrapassar os limites da ética e da verdade.
O outro lado da moeda: Ação Penal
Em um desdobramento que equilibra a discussão sobre responsabilidade, a Justiça também acolheu a queixa-crime da jornalista Paula Litaiff, diretora-geral da Cenarium, e tornou réus a empresária e comunicadora Cileide Moussallem e o jornalista Paulo José Ribeiro da Silva por crimes de calúnia, difamação e injúria.
A denúncia é baseada na divulgação de conteúdos inverídicos e ataques pessoais contra a dissertação de mestrado de Litaiff, que tratava da resistência sociopolítica de lideranças femininas indígenas. A jornalista aponta que as práticas configuram uma estratégia sistemática de violência simbólica para silenciar vozes femininas, indígenas e acadêmicas que ousam questionar estruturas de poder. Ao acolher a queixa-crime, a juíza reforçou que os ataques em plataformas digitais e sites de notícias têm implicações criminais, citando “indícios de autoria e materialidade” e “lastro probatório suficiente”.
O papel essencial da Imprensa Profissional
Os casos em Manaus sublinham o papel fundamental da imprensa profissional na sociedade. Sua função não é apenas informar, mas contra-atacar a manipulação e servir como um escudo para aqueles que não possuem voz ou recursos para enfrentar o poder.
O jornalismo profissional é vital porque:
Exige transparência: Obriga o poderoso a prestar contas e a responder aos fatos, confrontando a retórica com a investigação.
Estabelece limites: Ao buscar a verdade, expõe quem opera fora dos limites da responsabilidade e da lei.
Defende a coerência: Garante que a discussão pública se baseie em evidências, e não em narrativas seletivas ou falsas acusações.
O embate demonstra a necessidade de que a Justiça continue a responsabilizar todos aqueles que abusam de sua plataforma para difamar ou mentir, garantindo um ambiente informativo mais íntegro e seguro para a sociedade.

Ronaldo Aleixo
É jornalista (DRT 96423/SP), filiado à Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e ao Sindicato dos Jornalistas de Roraima (Sinjoper). Possui formação como Tecnólogo em Marketing pela Uninter-AM e é pós-graduado em Jornalismo Digital, Jornalismo Investigativo, Docência do Ensino Superior, Gestão de Mídia Social e MBA em Ciência Política: Relação Institucional e Governamental, todas pela Uninter-PR.
Obs: o espaço está aberto para que os citados possam se manifestar.





