A terça-feira, 31 de março de 2026, ficará marcada na memória de Manaus como o dia em que o contraste entre o protocolo político e a crueza da sobrevivência atingiu seu ápice. Enquanto o “primeiro feirante” assumia a cadeira de prefeito em meio a ritos de posse pomposos e o agora ex-prefeito David Almeida se despedia do cargo, as águas de um temporal implacável escreviam uma história de dor no bairro Jorge Teixeira. A morte do pequeno Théo Lucca Oliveira da Costa, de apenas três anos, arrastado pela força de um igarapé, não é uma fatalidade isolada da natureza; é o sintoma mais cruel de uma cidade que cresce de costas para sua própria geografia e, principalmente, para o seu povo.
O cenário de ontem resume o desafio hercúleo que o novo prefeito herda e que a gestão de David Almeida não conseguiu solucionar. A infraestrutura de Manaus continua sendo um castelo de cartas que desmorona ao primeiro sinal de nuvens carregadas. Isso revela que o investimento em espetacularização e festas de grande vulto, embora tragam um brilho efêmero para as redes sociais, não protegem o cidadão da lama e do luto. O saneamento básico e o manejo de águas pluviais foram tratados por anos como “obras invisíveis”, mas essa invisibilidade termina de forma trágica quando o corpo de uma criança é resgatado de um córrego após uma operação desesperada envolvendo helicópteros e bombeiros.
A urgência da prioridade se impõe de forma ética e administrativa. Não se trata de vilanizar a cultura, mas de questionar a hierarquia de gastos. É inadmissível que famílias inteiras permaneçam à mercê de bueiros entupidos e igarapés sem qualquer contenção enquanto milhões são drenados para o supérfluo. Existe uma conivência histórica e uma incompetência burocrática nas esferas municipal, estadual e federal que permite a ocupação de áreas de risco. O poder público omite-se ao não impedir invasões em locais geologicamente instáveis e, posteriormente, falha miseravelmente ao não oferecer alternativas de moradia digna ou infraestrutura de proteção. No fim das contas, os mais vulneráveis tornam-se vítimas da própria sorte pela total falta de opção e pela ausência do Estado.
O novo prefeito assume sob o grito de socorro que ecoa da Zona Leste. Sua gestão será medida não pela grandiosidade de seus discursos de “povo no poder”, mas pela capacidade real de frear a espetacularização da política e focar no básico. O luto por Théo precisa ser o divisor de águas para que o orçamento público priorize a limpeza de igarapés e a contenção de encostas em vez de palcos e fogos de artifício. A memória desse menino deve servir de alerta máximo: na próxima chuva, o que o povo de Manaus espera é o escoamento eficiente das águas e a segurança do seu lar, e não ter que assistir, mais uma vez, ao sepultamento precoce de uma infância interrompida pelo descaso.
Por Ronaldo Aleixo





