O Privilégio do Silêncio: Por que a raça de Gustavo Marques sumiu quando ele virou o agressor? A histeria seletiva e o “efeito Vini Jr.” às avessas.

O futebol brasileiro vive um transe de hipocrisia. Quando Vinícius Júnior é alvo de insultos racistas na Espanha, o Brasil para. O governo se manifesta, o Itamaraty se mobiliza e a imprensa esportiva, com razão, faz da cor da pele do craque o estandarte de uma luta civilizatória. A raça, ali, é o centro de tudo.

Mas o que acontece quando o homem negro deixa o papel de vítima e assume o de agressor?

No último sábado, o zagueiro Gustavo Marques, do Bragantino, disparou contra a árbitra Daiane Muniz: “Não se pode colocar uma mulher para apitar um jogo desse tamanho”. Uma frase que exala o chorume do machismo mais arcaico. Contudo, observem as manchetes: “Jogador critica árbitra”, “Atleta do Massa Bruta pede desculpas”.

Onde foi parar a raça de Gustavo Marques? Por que o “homem negro” de repente virou apenas o “atleta”?

O silêncio sobre a identidade racial do agressor revela uma blindagem seletiva. Parece haver um acordo tácito nas redações: a negritude é pauta obrigatória para gerar comoção, mas deve ser omitida para evitar o desconforto de admitir que uma vítima histórica de racismo também pode ser um agente de opressão de gênero.

É a histeria seletiva. Se fosse Daiane Muniz a proferir um insulto racial contra Marques, a internet estaria em chamas exigindo a prisão da “árbitra branca”. Mas, como o ataque foi contra uma mulher, a raça do agressor é higienizada, como se citá-la fosse um pecado contra a narrativa da “vítima eterna”.

Ao poupar Marques do debate racial no momento do erro, a imprensa não o protege; ela o infantiliza. Retira dele a responsabilidade total de um adulto que, sabendo o peso da discriminação, escolheu usar o gênero para humilhar uma profissional.

Se a cor da pele é o que define o apoio a Vini Jr., ela não pode sumir por conveniência quando o protagonista da vez decide ser o vilão. No tribunal da opinião pública, a régua deve ser a mesma. Ou a raça importa sempre, ou ela é apenas uma ferramenta de marketing para vender indignação barata.

Opinião de Ronaldo Aleixo – Chefe de Redação e Jornalista do Portal Chumbo Grosso.

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