A apreensão de R$ 1,15 milhão com o Major Douglas Araújo Moura, em São Paulo, não apenas expôs as entranhas de uma suposta estrutura de “servidores fantasmas” no Governo do Amazonas, mas revelou uma seletividade cirúrgica na indignação da direita conservadora amazonense.
Enquanto o Portal da Transparência confirma a ausência de registros que justifiquem a viagem do oficial — que recebe cerca de R$ 35,8 mil mensais sem, teoricamente, dar expediente — o campo político que costuma “incendiar” as redes sociais parece ter sofrido um apagão digital.
Dois Pesos, Duas Medidas
A pergunta que não quer calar nos bastidores de Manaus é: e se o flagrante fosse com alguém ligado a David Almeida ou Omar Aziz?
Se um aliado do prefeito David ou do senador Omar fosse parado pela ROTA com uma mochila recheada de notas de cem, o estoque de adjetivos e as edições de vídeos de “lacração” do PL Amazonas já teriam esgotado a memória dos celulares. Assistiríamos a lives em frente à delegacia, discursos inflamados na tribuna e uma avalanche de Reels com trilhas sonoras de suspense, exigindo prisões e cassações imediatas.
Contra os adversários, a “moral” é implacável; contra os “seus”, a discrição é a regra.
A Blindagem do Silêncio
É curioso notar o comportamento de figuras que construíram carreiras sob o mantra do combate à corrupção:
- Capitão Alberto Neto: O pré-candidato ao Senado, costumeiramente ágil em apontar falhas em cada asfalto da prefeitura ou em cada fala de Omar, mantém uma discrição ensurdecedora sobre o caso de seu colega de farda.
- Débora Menezes: A deputada estadual, conhecida pelo tom bélico em suas redes sociais e por não poupar ataques à gestão municipal e ao grupo de Omar Aziz, parece ter perdido o sinal de internet. Onde está o vídeo de “indignação patriótica” sobre um oficial da PM agindo como fantasma com 1 milhão na mão?
- Coronel Rosses e Vereador Carper: As vozes que ecoam na Câmara Municipal contra a criminalidade parecem ter silenciado diante do flagrante da ROTA. O vigor fiscalizador sumiu.
- Maria do Carmo: A pré-candidata ao Governo, que prega uma “limpeza” na gestão pública, ainda não emitiu uma única nota sobre o “fantasma milionário” que assombra a Secretaria de Segurança (SSP-AM).
Coerência ou Conveniência?
O Major Douglas não é um novato em polêmicas; seu histórico de 2022 já deveria ter ligado o alerta. Ao ser flagrado com uma fortuna em outro estado enquanto deveria estar em seu posto em Manaus, ele coloca em xeque a credibilidade da cúpula da segurança e, por tabela, a coerência de seus aliados políticos.
O povo do Amazonas assiste ao espetáculo do silêncio cúmplice. A falta de uma postura firme dessas lideranças sugere que a ética deles tem lado — e, aparentemente, esse lado ignora malas de dinheiro quando o CPF envolvido é “da casa”.
“A lacração na internet tem um filtro ideológico: contra David e Omar, o grito é feroz; diante do milhão do Major, o silêncio é absoluto.”





