Comitê Municipal atua na prevenção à transmissão vertical da sífilis

Em 2025, o município de Manaus registrou 351 crianças menores de um ano com sífilis congênita, com 66 casos novos já diagnosticados este ano.

Fotos - Divulgação / Semsa

Evitar que crianças nasçam com sífilis congênita, que ocorre quando há transmissão da infecção da mãe para o bebê durante a gestação ou parto, é um dos objetivos do Comitê Municipal de Prevenção da Transmissão Vertical, implantado em 2025 no município de Manaus. O comitê é vinculado à Secretaria Municipal de Saúde (Semsa), por meio da Subsecretaria de Gestão em Saúde (Subgs), e atua de forma articulada com as redes de atenção à saúde, instituições públicas e privadas, conselhos profissionais, instituições de ensino e pesquisa, organizações da sociedade civil e instâncias de controle social do Sistema Único de Saúde (SUS).

O comitê é presidido pela técnica do Núcleo de Controle de HIV/Aids, IST e Hepatites Virais da Semsa, enfermeira Ylara Enmily Costa, que explica que o órgão tem como objetivo subsidiar a gestão municipal na prevenção da transmissão vertical do HIV, da sífilis e das hepatites B e C, por meio da análise epidemiológica, do monitoramento dos casos e da formulação de recomendações técnicas.

“O monitoramento da Semsa aponta que, embora haja avanços com a ampliação da testagem e do acesso ao pré-natal, a sífilis congênita ainda é um desafio. São casos que podem ser evitados quando o pré-natal é iniciado em tempo oportuno e a gestante realiza o tratamento. O comitê trabalha ainda com a prevenção à transmissão vertical de HIV, com Manaus mantendo taxas dentro dos parâmetros preconizados nacionalmente. No caso da transmissão vertical de hepatite B e C, o município não registrou casos no segundo semestre de 2025”, informa Ylara Costa.

O monitoramento epidemiológico da transmissão vertical da sífilis é um eixo estruturante da atuação do Comitê Municipal, que seleciona casos de ocorrência de sífilis congênita investigados pelos Distrito de Saúde (Disas) para identificar vulnerabilidades que podem ter contribuído para os casos.

“É essencial identificar as vulnerabilidades para que se construa estratégias de correção ou de intervenção. Na análise de casos, é possível perceber que existem vulnerabilidade sociais e individuais que contribuem para que a gestante não inicie o pré-natal ou tratamento em tempo oportuno”, aponta Ylara.

A enfermeira cita questões como socioeconômicas que impedem o comparecimento às consultas de acompanhamento do pré-natal de forma regular; a recusa da parceria (as), em buscar atendimento e tratamento, o que pode resultar em reinfecção da gestante que já realizou o tratamento; questões de acesso aos serviços, como dificuldades no seguimento laboratorial, a busca ativa de casos suspeitos de sífilis e de integração Atenção Primária à Saúde (APS), maternidades e vigilância.

“A partir da análise de casos, o Comitê Municipal encaminha recomendações e elabora relatórios que podem ser usados para embasar decisões de gestão, impactando na qualificação do atendimento nas Unidades de Saúde, maternidades e na vigilância epidemiológica. O objetivo é a implementação de estratégias que reduzam o impacto das vulnerabilidades sociais e individuais no controle da sífilis congênita, e corrijam possíveis falhas na rede de assistência em saúde”, destacou Ylara Costa.

Infecção

A sífilis é uma infecção bacteriana sistêmica, causada pela bactéria Treponema pallidum, que evolui de forma crônica, mas tem tratamento e cura. A transmissão ocorre principalmente por via sexual e por transmissão vertical, durante a gestação, quando não há o tratamento ou o tratamento é inadequado.

Sem o tratamento adequado no pré-natal, a sífilis congênita pode resultar em consequências graves, como aborto, natimorto, parto pré-termo e morte neonatal, além de manifestações congênitas precoces ou tardias, incluindo cegueira, surdez, alterações ósseas e deficiência intelectual.

Dados do Boletim Epidemiológico Especial da Sífilis do Município de Manaus (2026), elaborado pelo Núcleo de Controle do HIV/Aids, IST e Hepatites Virais (NUCIST/Semsa), mostram que, de 2020 a 2025, a capital amazonense registrou 1.926 casos de sífilis congênita em menores de um ano, sendo que foram notificados 351 casos somente em 2025, o que representa manutenção de casos em comparação com o ano anterior.

De acordo com Ylara Costa, a prevenção da sífilis congênita ocorre com o diagnóstico da sífilis em gestantes em tempo oportuno e o tratamento adequado, assim como o cuidado no momento da internação para o parto.

“É considerado como tratamento adequado da gestante com sífilis, o tratamento realizado com benzilpenicilina benzatina iniciado até 30 dias antes do parto, com esquema terapêutico completo conforme o estágio clínico da infecção, respeitando-se os intervalos recomendados entre as doses e garantindo a conclusão do tratamento antes do parto. Em 2025, 90,5% das mães de crianças notificadas com sífilis congênita apresentaram tratamento inadequado ou não realizado”, informa Ylara.

Os dados do Boletim Epidemiológico mostram também que, no ano passado, na análise do momento do diagnóstico da sífilis materna entre os casos de sífilis congênita, em 38,7% dos casos, o diagnóstico foi realizado durante o pré-natal; 55,5% foram identificados apenas no momento do parto ou curetagem; 4,6% após o parto; e 1,2% dos registros, o diagnóstico não foi realizado ou essa informação não constava na ficha de notificação.

“Esses dados demonstram que, mesmo uma parcela significativa das gestantes tenha realizado pré-natal, o diagnóstico da sífilis não ocorreu em tempo oportuno na maior parte dos casos que evoluíram para sífilis congênita”, explica Ylara.

A recomendação é que a gestantes seja testada para a sífilis em pelo menos quatro momentos: na primeira consulta de pré-natal, com o ideal sendo ainda no primeiro trimestre de gestação; no segundo trimestre; no terceiro trimestre de gestação; e no momento do parto ou em casos de aborto.

No período de 2020 a 2025, o total de notificações de sífilis em gestantes em Manaus atingiu a marca de 11.098, destes casos 2.341 foram registrados no ano de 2025, o que indicou um aumento de 30% em comparação com o ano de 2024. No ano passado, entre o total das gestantes diagnosticadas com sífilis, o diagnóstico ocorreu principalmente no 3º trimestre de gestação (28,7%), representando predomínio do diagnóstico tardio já verificado ao longo da série histórica; o 2º trimestre representou 24,3% dos casos em 2025, e 1º trimestre concentrou 23,0% das notificações.

Ylara Costa explica que a parcela significativa dos diagnósticos que ainda ocorrem no 2º e 3º trimestres de gestação, é um dos fatores que compromete a prevenção da transmissão vertical. “O ideal é que o diagnóstico ocorra preferencialmente no primeiro trimestre, o que leva ao início do tratamento e, assim, reduzindo muito o risco de sífilis congênita”, afirmou a enfermeira.

Sífilis adquirida

Em relação à sífilis adquirida, infecção diagnosticada em indivíduos com idade igual ou superior a 13 anos, excluindo-se as gestantes, Manaus registrou 21.069 casos entre 2020 e 2025, com 3.654 casos no ano passado.

Quanto ao sexo de nascimento, em 2025 o masculino concentrou 63,7% dos casos de sífilis adquirida.

Ações

Para a prevenção à sífilis e outras Infecções Sexualmente Transmissíveis, a Semsa desenvolve estratégias com foco na ampliação do diagnóstico precoce, no tratamento oportuno e na prevenção combinada.

As ações desenvolvidas incluem disponibilização de testes rápidos para sífilis em todas as unidades da Atenção Primária à Saúde; o rastreio sistemático durante o pré-natal e a oferta do teste rápido às gestantes para a detecção precoce, o diagnóstico e tratamento imediato; estratégias permanentes de educação em saúde voltadas à população geral e a grupos prioritários, com ênfase na promoção do autocuidado, na ampliação da busca por testagem e na prevenção das infecções sexualmente transmissíveis; dispensação de preservativos em ações nas Unidades de Saúde e em ações extramuros desenvolvidas nos territórios, em campanhas, eventos e atividades comunitárias estratégicas.

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