O recente vídeo publicado pelo vereador Capitão Carpê (PL) na tribuna da Câmara Municipal de Manaus expõe uma pauta legítima da segurança pública: o atraso de anos no pagamento do auxílio-fardamento dos policiais militares. No entanto, ao analisar a peça com lentes jornalísticas e isenção, o que se vê por trás do discurso inflamado é um nítido movimento eleitoral para blindar o ex-governador Wilson Lima e atacar Roberto Cidade, atual adversário do grupo de Maria do Carmo Seffair.
Ao apontar o dedo diretamente para a atual gestão estadual e para o presidente da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), o parlamentar comete uma injustiça administrativa para tentar colher dividendos políticos de véspera de eleição.
A Cronologia que Não Bate
O próprio vereador afirma no vídeo que a precarização dos uniformes e o descaso com a tropa se arrastam há quatro ou cinco anos. Se esse é o tempo de abandono, a conta cobrada por Carpê deveria ser entregue em outro endereço: o do ex-governador Wilson Lima (União Brasil), hoje pré-candidato ao Senado e principal aliado político do grupo do vereador.
Culpar o atual chefe do Executivo, que assumiu o comando do Palácio da Compensa há pouco mais de 50 dias, por um problema estrutural crônico de meia década é ignorar a matemática e a lógica da gestão pública.
A Incoerência das Secretarias e o Risco no Diário Oficial
Outro ponto que fragiliza a narrativa de oposição radical adotada por Carpê é a posição de seu próprio partido. O PL não é um espectador externo da política amazonense; a sigla participou ativamente da base de sustentação do governo nos últimos anos, ocupando pastas relevantes no primeiro escalão.
Fontes de bastidores indicam que esse bombardeio na tribuna deve apressar um movimento inevitável no xadrez político: a canetada no Diário Oficial. Com o controle da máquina, Roberto Cidade não deve manter aliados indicados por Carpê nos chamados “gabinetes de emprego” e cargos de confiança do Estado. A expectativa é de que uma “reforma administrativa” limpe as gavetas de quem bate no governo na tribuna, mas tenta manter os peões abrigados nas secretarias estaduais.
O Alvo é Outubro, não a Farda
O pano de fundo dessa artilharia pesada é a sucessão estadual. Com as articulações para consolidar a pré-candidatura da empresária Maria do Carmo Seffair (PL) ao Governo do Estado, a estratégia do grupo bolsonarista parece clara: desgastar o atual governador, que surge como o principal adversário direto na disputa pelo comando do Amazonas.
A dignidade dos policiais militares e a estrutura de trabalho da categoria são temas sérios que exigem fiscalização e cobrança real. Porém, usar o fardamento gasto do “Steve” como escudo para blindar aliados do passado e alvejar adversários do presente transforma uma cobrança justa em mero palanque eleitoral. E o eleitor amazonense, atento, sabe diferenciar a fiscalização genuína do oportunismo.





