A política amazonense é cíclica, mas poucas engrenagens são tão manjadas quanto o uso eleitoral da BR-319. Às vésperas de mais um pleito, o roteiro tradicional foi reativado com pompa, circunstância e muita cara de pau: o senador Eduardo Braga correu para assumir a paternidade de um “destravamento” histórico da rodovia. Amparado por uma emenda de sua autoria na Lei Geral do Licenciamento Ambiental e pela reabertura de pregões de R$ 678 milhões pelo DNIT, Braga vende a ilusão de que a novela acabou.
O alinhamento parece perfeito para o palanque: o “verão amazônico” está batendo à porta, trazendo a janela seca ideal para colocar tratores na pista. Para completar a maquiagem, fotos sorridentes ao lado do presidente Lula tentam carimbar o passaporte do senador como o “milagreiro” de Brasília. No entanto, o que se vende como solução definitiva não passa de um castelo de cartas jurídico e retórico com data de validade curtíssima: outubro de 2026.
A ilusão da engenharia em 5 meses
O primeiro choque de realidade é puramente cronológico. Mesmo com a liminar do TRF-1 liberando os certames, a burocracia para homologar contratos e mobilizar empreiteiras vai empurrar o início real dos trabalhos para o meio da estiagem.
Sejamos pragmáticos: cinco meses de poeira servem apenas para tapar buraco, conter erosão e passar um “perfume” na pista — o que o próprio tribunal chamou de “melhoramento e conservação”, e não pavimentação estrutural. Braga sabe perfeitamente que não haverá um centímetro de asfalto definitivo entregue até a votação. O objetivo nunca foi concluir a engenharia, mas sim fabricar o “fato político visual”: o ronco de uma retroescavadeira no Trecho do Meio para servir de cenário em comercial de campanha.
Copiou o Plágio: O Espelho pune o oportunismo
A maior fraqueza da estratégia de Braga, contudo, está na memória do povo. O senador já ensaia um discurso de desculpa: se a Justiça travar tudo de novo — o que é quase certo, já que o mérito da ação ambiental nem foi julgado —, a culpa será jogada nas costas da “ala ideológica” do governo, personificada em Marina Silva e no Ibama.
É aí que a máscara cai. Esse enredo é um plágio exato do governo anterior. Entre 2019 e 2022, o grupo ligado a Jair Bolsonaro usou rigorosamente a mesma cartilha: soltou uma Licença Prévia na véspera da eleição e, quando o projeto parou nos tribunais, culpou o “ativismo judicial”. Na época, a atual base governista criticava duramente a falta de competência do palanque oposto. Agora, fazem igualzinho.
Se o prestígio político de Eduardo Braga é tão gigantesco para render fotos abraçado com o presidente, por que esse poder todo desaparece na hora de dar segurança jurídica real a um projeto de R$ 2 bilhões? Se a culpa for dos ministros de Lula, a incoerência explode no colo do senador.
A BR-319 não será asfaltada a tempo
A verdade nua e crua é que a BR-319 continua sendo tratada como uma commodity eleitoral, uma moeda de troca barata. Focar no barulho de licitações frágeis em vez de blindar o licenciamento na Constituição expõe uma tática desesperada de curto prazo. Se essa liminar capenga cair no STF amanhã, as máquinas somem e o palanque esvazia.
Eduardo Braga corre o risco de chegar às urnas não como o realizador que libertou o Amazonas do isolamento, mas como o político que subestimou a inteligência de uma população cansada de promessas que duram apenas o tempo em que a urna eletrônica fica ligada. O asfalto não vem, e o eleitor já percebeu o truque.
Texto: Ronaldo Aleixo/ Rubson Madeira/Felipe Jr. – membros do Cobras da Direita.
Foto: Correio da Amazônia
Ronaldo Aleixo é jornalista profissional (DRT 96423/SP), especialista em Direito Digital (PUC-RS), pós-graduado em Jornalismo Digital e Investigativo e MBA em Ciência Política: Relações Institucionais e Governamentais (Uninter-PR).





