Quem já precisou de uma delegacia depois das seis da tarde ou em um domingão sabe bem o tamanho do drama. Você chega lá, muitas vezes machucado, assustado ou depois de ter seu bem roubado, e dá de cara com o portão fechado. É o famoso “volte amanhã”. A verdade nua e crua é que a segurança pública no Brasil, e especialmente aqui no Amazonas, está sofrendo de um mal duplo: faltam braços na rua e sobram diplomas trancados em gabinetes.
Recentemente, até a classe política — como o senador Omar Aziz — colocou o dedo na ferida ao criticar esse apagão das delegacias após as 18h e nos fins de semana. Mas por que chegamos a esse ponto?
O “Apagão” dos Operacionais
O primeiro nó da corda é simples: faltam investigadores, escrivães e policiais na rua. Enquanto a criminalidade não tem hora para agir, as delegacias parecem funcionar em horário bancário por pura falta de contingente. O policial de base está sobrecarregado, desvalorizado e, muitas vezes, sendo desviado para cuidar de papelada burocrática ou fazer segurança de autoridade. Resultado? Falta gente para abrir o plantão da madrugada e atender a dona de casa que precisa de uma medida protetiva urgente.
Muito “Doutor” e pouca prática: A crise da empatia
Aí entramos no segundo problema, que é a chamada “doutorização” do serviço público. O Brasil virou uma fábrica de bacharéis em Direito. Para subir na carreira ou ganhar um salário melhor, muitos servidores correm atrás de títulos: pós-graduação, mestrado, doutorado. Ter conhecimento é ótimo, mas o problema começa quando o diploma afasta o profissional da realidade do povo.
Criou-se uma distorção onde o inquérito policial e o boletim de ocorrência parecem teses de faculdade, cheias de palavras difíceis e “juridiquês”, mas que na prática não resolvem o problema de quem está na fila. Pior ainda: essa busca pelo topo acadêmico gera, às vezes, um salto alto institucional. O servidor superqualificado passa a achar que o trabalho de base — que é ouvir o cidadão com paciência, dar um atendimento humanizado e resolver a treta do dia a dia — é um serviço menor, indigno do seu currículo.
É a crise da empatia. O cidadão vira um número, o atendimento fica frio e ríspido, e a espera na recepção passa de dez horas. A alta qualificação vira desculpa para o descaso.
O que fazer para mudar o jogo?
Não adianta apenas o policial ter o título de doutor se o portão da delegacia está trancado com cadeado quando a mãe de família é agredida. A polícia precisa de inteligência, sim, mas precisa, antes de tudo, de atendimento e operacionalidade.
Para virar esse jogo, a cobrança tem que ser firme em três frentes:
- Policial na atividade-fim: Tirar os agentes dos gabinetes e colocar no atendimento e na investigação.
- Valorizar quem está na ponta: O plano de carreira tem que premiar quem atende bem o povo e resolve o crime na rua, e não apenas quem acumula carimbos e diplomas.
- Fiscalização do povo: Se o atendimento foi ruim ou a delegacia estava fechada, a população precisa botar a boca no trombone usando os canais oficiais, como o WhatsApp da Ouvidoria do Sistema de Segurança (92 99434-9304) ou a plataforma Fala.BR.
Segurança pública não se faz com tese de doutorado na gaveta; se faz com porta aberta, acolhimento e polícia na rua defendendo o cidadão. É isso que o povo espera e exige!





