Manaus precisa orientar seu crescimento para aproximar as pessoas das oportunidades e conter a expansão dispersa da cidade. Para o arquiteto e urbanista José Henrique Lanna, diretor da Câmara de Meio Ambiente (CMA) da ADEMI-AM, equilibrar a densidade em áreas planejadas é fundamental para reduzir deslocamentos, melhorar o aproveitamento dos investimentos públicos e diminuir a pressão sobre a floresta.
A dimensão do desafio aparece nos números. Segundo o IBGE, Manaus passou de 1.802.014 habitantes, em 2010, para 2.063.689, em 2022. Foram aproximadamente 262 mil moradores a mais em 12 anos, um crescimento de 14,5%. Esse aumento exige novas moradias, mas também planejamento sobre onde estarão escolas, unidades de saúde, empregos, transporte e redes de infraestrutura.
Na avaliação de Lanna, quando a ocupação avança de forma descontínua, deixando terrenos sem uso entre áreas urbanizadas e levando famílias para longe dos serviços, a cidade acumula despesas e amplia as distâncias do cotidiano. Novas frentes de ocupação exigem o prolongamento de redes de água, esgoto, energia, drenagem e iluminação, além de transporte, coleta de resíduos e manutenção viária.
O terreno mais barato na ponta da cidade pode, assim, representar uma conta permanente para moradores e município. As famílias assumem gastos maiores com transporte e tempo de deslocamento, enquanto o poder público precisa levar e manter serviços em um território cada vez mais extenso.
Densidade equilibrada e infraestrutura devem caminhar juntas
A proposta defendida por Lanna é direcionar o crescimento para áreas urbanizadas e setores planejados, com infraestrutura existente ou investimentos definidos para acompanhar a chegada de novos moradores. A quantidade de habitações deve ser compatível com a capacidade do saneamento, do transporte e dos equipamentos públicos.
Esse equilíbrio exige avaliar cada região. Áreas bem atendidas e com capacidade disponível podem receber mais moradores e atividades. Locais com redes sobrecarregadas precisam de intervenções antes de ampliar sua ocupação.
A altura dos edifícios, isoladamente, não determina a qualidade urbana. Também importam a ocupação dos lotes, a combinação de usos, os espaços públicos e as conexões entre as ruas.
Estudo publicado pelo Ipea sobre revitalização de áreas centrais destaca que essas regiões frequentemente concentram infraestrutura e acessibilidade. Seu repovoamento pode contribuir para cidades mais compactas e sustentáveis.
Em Manaus, esse princípio pode orientar a recuperação de imóveis ociosos e a ocupação planejada de terrenos adequados dentro da cidade, respeitando áreas protegidas e de risco.
Habitação precisa estar conectada à cidade
O Censo 2022 também revelou que aproximadamente 55,8% da população de Manaus vivia em favelas e comunidades urbanas, cerca de 1,15 milhão de pessoas. O dado evidencia a dimensão da demanda por políticas de urbanização e habitação.
Para Lanna, a resposta deve combinar melhorias nos bairros existentes e oferta de novas moradias bem localizadas, inclusive para famílias de menor renda. Conter o espraiamento exige ampliar alternativas acessíveis em áreas servidas por infraestrutura. Sem essa oferta, o encarecimento da moradia pode continuar empurrando a população para locais distantes.
O fortalecimento de centralidades em diferentes regiões é parte dessa estratégia. São áreas que reúnem comércio, serviços, empregos, escolas e atendimento de saúde próximos às residências e conectados por transporte coletivo. Essa distribuição permite resolver mais atividades perto de casa e reduz a necessidade de atravessar a cidade.
“Uma cidade não precisa obrigar o cidadão a atravessá-la todos os dias para resolver a vida. Quando moradia, trabalho, escola, saúde e comércio estão mais próximos, o cidadão ganha tempo e a infraestrutura existente passa a ser melhor aproveitada”, afirma Lanna.
Uma cidade mais compacta também precisa de sombra e espaços públicos
O planejamento da densidade deve incorporar as condições climáticas de Manaus. Segundo os resultados do Censo 2022 sobre o entorno dos domicílios, 44,8% da população urbana da capital vivia em trechos de vias com presença de arborização.
Por isso, aproximar destinos precisa vir acompanhado de calçadas acessíveis e sombreadas, travessias seguras, praças, drenagem e proteção dos igarapés. Essas condições tornam os percursos a pé mais viáveis e ajudam a compatibilizar maior ocupação com conforto ambiental.
Na avaliação de Lanna, conter o espraiamento urbano exige decisões coordenadas sobre habitação, uso do solo, mobilidade e meio ambiente. As prioridades são aproveitar melhor as áreas já urbanizadas, distribuir empregos e serviços, recuperar bairros com carências e condicionar novas ocupações à infraestrutura necessária.
O objetivo é fazer com que cada investimento ajude a consolidar uma cidade mais próxima e funcional, em que o crescimento populacional se traduza em acesso a oportunidades, qualidade de vida e menor pressão sobre a floresta.





