O Alzheimer já faz parte da realidade de milhões de famílias brasileiras. Segundo o Relatório Nacional sobre a Demência, do Ministério da Saúde, cerca de 2,71 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais vivem com algum tipo de demência. A projeção é de que esse número chegue a 5,6 milhões até 2050. No Mês Mundial do Alzheimer, celebrado em setembro, a experiência do humorista Daniel Sartório com o pai, Celso Trindade, mostra como o diagnóstico também transforma relações, rotinas e a maneira de preservar histórias e vínculos.
Celso recebe inicialmente o diagnóstico de demência por corpos de Lewy e posteriormente passa a conviver com o Alzheimer. Ao acompanhar a evolução da doença, Daniel percebe que a condição não define a pessoa. Mudanças na memória e na comunicação convivem com características que permanecem, como o humor e o gosto por contar histórias.
“Meu pai sempre foi um grande contador de histórias. Outro dia na academia ele estava rodeado dos colegas contando piada. A doença não apaga quem ele é”, afirma Daniel.
Celso mantém o hábito de reunir familiares e amigos para compartilhar histórias e episódios vividos ao longo dos anos. Com o avanço da doença, algumas lembranças desaparecem ou surgem de maneira fragmentada. Para Daniel, registrar esses momentos se torna uma forma de preservar parte da trajetória do pai.
A experiência leva Daniel a defender uma abordagem que não reduza a pessoa ao diagnóstico. Para ele, manter vínculos, ouvir, conversar e preservar histórias são formas de acolhimento diante das mudanças provocadas pelo Alzheimer.
“A doença pode levar algumas lembranças, mas não leva a história que construímos juntos. O que fica é a maneira como a gente escolhe estar presente”, afirma.
Daniel também transforma as histórias do pai em um registro audiovisual no YouTube com o nome “Antes que ele se esqueça”. O projeto nasce da vontade de guardar os “causos” antes que parte deles se perca com o avanço da doença. O humor aparece como ferramenta de aproximação e ajuda a tratar de um assunto delicado sem reduzir Celso à condição clínica.
“Meu pai continua sendo meu pai. Ele continua tendo histórias, personalidade, humor e uma vida inteira antes do Alzheimer. O principal é não deixar que a doença seja maior do que a pessoa”, conclui Daniel Sartório.





