O Amazonas vive, neste abril de 2026, um roteiro que parece saído das gavetas mais empoeiradas do Palácio Rio Negro. Com a renúncia de Wilson Lima e Tadeu de Souza, o estado assiste à ascensão de Roberto Cidade (União Brasil) ao posto de governador interino. O movimento é um espelho quase perfeito do que ocorreu em 2017 com David Almeida, mas com uma ironia que só a política baré é capaz de produzir: os aliados de ontem são os algozes de hoje, e o “mestre” das jogadas continua sendo o mesmo.
A “Rebelião” que criou um Prefeito
Para entender o presente, é preciso dissecar o “DNA” político de David Almeida. Em 22 de dezembro de 2016, David não era apenas um deputado; era o homem de confiança do senador Omar Aziz dentro do PSD. Foi sob as bênçãos e a articulação direta de Omar que David liderou uma rebelião interna na Assembleia Legislativa (ALE-AM), derrotando o veterano Belarmino Lins por 17 votos a 5.
Aquela vitória garantiu a David a presidência da Casa e, meses depois, a caneta de governador interino após a cassação de José Melo. Na época, Omar Aziz era o grande fiador da ascensão de David. O mapa de votos daquela noite revela quem deu as cartas para que o “interino” ganhasse luz própria:
Os 17 que elegeram David (A Base de Omar em 2016):
- PSD (Partido de Omar): David Almeida, Dr. Gomes, Josué Neto, Mário Bastos, Ricardo Nicolau.
- PTN: Abdala Fraxe, Francisco Souza, Orlando Cidade.
- PR: Cabo Maciel, Sabá Reis.
- PMDB: Alessandra Campêlo (dissidente), Wanderley Dallas.
- Outros: Adjuto Afonso (PDT), Augusto Ferraz (DEM), Luiz Castro (REDE), Plínio Valério (PSDB) e Serafim Corrêa (PSB).
Sobreviventes: Quem ainda dá as cartas na ALE-AM?
O que mais chama a atenção em 2026 é a longevidade de alguns desses nomes. Quase dez anos depois, o plenário da ALE-AM ainda abriga figuras centrais daquela eleição de David. Conheça os “sobreviventes” que continuam com mandato e que agora participam da sucessão de Roberto Cidade:
- Abdala Fraxe (Avante): O fiel escudeiro que atravessou legislaturas e hoje é um dos pilares do grupo político atual.
- Adjuto Afonso (União Brasil): Veterano de mil batalhas, mantém sua influência intacta no colegiado.
- Alessandra Campêlo (Podemos): Protagonista de um voto histórico em 2016, continua sendo uma das vozes mais ativas da Casa.
- Cabo Maciel (PL): Segue firme com sua base eleitoral e presença constante nas decisões de plenário.
- Dr. Gomes (Podemos): Aliado histórico que permanece no tabuleiro parlamentar.
- Sinésio Campos (PT): Embora tenha se abstido em 2016, continua sendo o decano da Casa, observando as trocas de poder de camarote.
A Criatura contra o Criador
A ironia fina reside no fato de que David Almeida, o “produto” mais bem-sucedido das articulações de Omar Aziz em 2017, hoje é o seu principal opositor. Após governar por 149 dias, David provou o gosto do Poder Executivo, rompeu com o PSD e trilhou voo solo, tornando-se prefeito de Manaus.
Hoje, os críticos nas redes sociais não perdoam: insinuam que Omar Aziz está tentando “repetir o feitiço” com Roberto Cidade, esperando que, desta vez, o aprendiz seja mais fiel que o anterior. A diferença é que Roberto Cidade assume sob a pecha de ser o “governador do sistema”, enfrentando um tribunal digital muito mais agressivo do que David enfrentou no passado.
O Tabuleiro Não Muda
O cenário de abril de 2026 confirma uma máxima da política amazonense: os nomes mudam, os partidos trocam de sigla, mas a estratégia de usar a presidência da ALE-AM como atalho para o Governo do Estado permanece intacta. Resta saber se, ao final deste novo ciclo de 30 dias, Roberto Cidade seguirá o script de fidelidade ao grupo de Wilson e Omar, ou se decidirá que a caneta de governador é pesada demais para ser compartilhada.





