A crise sanitária em Manaus durante a pandemia de Covid-19 ficou marcada como um dos capítulos mais dramáticos da história recente do país. Além da tragédia humana, o episódio escancarou gargalos de gestão e gerou um emaranhado de apurações que atingiram líderes políticos nas três esferas de governo.
- O Choque Inicial: Arthur Virgílio Neto e as Covas Coletivas
Antes do colapso no fornecimento de oxigênio na segunda onda, a capital amazonense já havia enfrentado o caos no sistema funerário em abril de 2020. Sob a gestão do então prefeito Arthur Virgílio Neto, a explosão diária no número de mortos levou a Prefeitura a utilizar tratores para abrir trincheiras e realizar sepultamentos em valas comuns no Cemitério Nossa Senhora Aparecida. As imagens chocaram o mundo e renderam fortes críticas sobre a humanização dos sepultamentos, embora a gestão alegasse medidas extremas de contingência sanitária.
- O Alerta Negligenciado: As Acusações Contra Wilson Lima e Jair Bolsonaro
No auge do desabastecimento de oxigênio, em janeiro de 2021, a cobrança por omissão recaiu sobre os governos estadual e federal:
- Wilson Lima (Governador do AM): Foi alvo de apurações do Ministério Público e da CPI da Covid no Senado devido à falta de planejamento nos estoques da rede hospitalar estadual e à demora na tomada de decisões.
- Jair Bolsonaro (Presidente da República): O Governo Federal foi acusado de negligência por ignorar avisos prévios sobre o esgotamento do oxigênio e demorar para acionar a logística militar da Força Aérea Brasileira (FAB), essencial para contornar o isolamento geográfico da região.
- O Escândalo das Vacinas: O Pedido de Prisão de David Almeida e Shádia Fraxe
Enquanto as lideranças estaduais e federais respondiam a inquéritos políticos e ações civis por omissão, a recém-empossada gestão municipal foi a única a enfrentar pedidos formais de prisão preventiva.
Com apenas três semanas no cargo, o prefeito David Almeida e sua secretária de Saúde, a médica Shádia Fraxe, tornaram-se o centro do escândalo do “fura-fila” da vacina. O Ministério Público do Estado do Amazonas (MP-AM) apontou irregularidades na imunização de pessoas fora dos grupos prioritários e na contratação de médicos para cargos comissionados, solicitando à Justiça a prisão preventiva e o afastamento imediato dos cargos de ambos por peculato e falsidade ideológica.
Nota da Redação
A atuação dos gestores públicos durante a pandemia em Manaus esteve sob constante fiscalização dos órgãos de controle e da justiça: enquanto o ex-prefeito Arthur Virgílio Neto enfrentou forte repercussão pública pela alteração nos protocolos de sepultamento na primeira onda, o governador Wilson Lima e o ex-presidente Jair Bolsonaro foram questionados quanto ao planejamento e suporte logístico para a distribuição de oxigênio; paralelamente, a condução do plano de vacinação no início da gestão do prefeito David Almeida e da secretária de Saúde Shádia Fraxe motivou procedimentos investigatórios por parte do Ministério Público, nos quais os gestores apresentaram suas defesas e argumentaram a regularidade dos atos praticados em contexto de emergência sanitária.





