Quem percorre as ruas de Manaus e Curitiba percebe, de imediato, que o chão sob nossos pés conta histórias diferentes sobre a gestão do dinheiro público. Enquanto na capital paranaense o concreto se impõe como uma solução de engenharia duradoura, em Manaus assistimos ao ciclo vicioso do “asfalto descartável”. Como especialista que transitou entre o rigor acadêmico do Sul e os desafios estruturais do Norte, vejo que a solução para o “ambiente hostil” da capital amazonense não é apenas uma questão de obras, mas de mudança de paradigma na política pública.

O Mito do Solo e o Rigor da Engenharia
O argumento de que o clima amazônico é o único culpado pela destruição das vias é incompleto. Curitiba também enfrenta umidade severa e variações térmicas constantes. A diferença fundamental reside na escolha do material. Nas canaletas exclusivas de ônibus e grandes eixos estruturais curitibanos, o pavimento rígido (concreto) é a regra. Ele é projetado para durar 30 anos.
Em Manaus, insistimos no CBUQ (Concreto Betuminoso Usinado a Quente) tradicional, que em solo argiloso e sob calor de 80°C na superfície, torna-se maleável e vulnerável. O resultado? As famosas “trilhas de roda” e ondulações que destroem a suspensão dos veículos e drenam o orçamento municipal com operações tapa-buracos que duram apenas até a próxima chuva.
Análise de Viabilidade Econômica: O Barato que Sai Caro
Para o gestor público, a escolha entre asfalto e concreto não deve ser baseada no custo da nota fiscal de hoje, mas no custo do ciclo de vida de 20 anos. É aqui que os números revelam uma verdade incômoda.
Embora a implantação do pavimento rígido custe entre 30% a 50% mais caro inicialmente — com valores que giram em torno de R$ 130 a R$ 190 por metro quadrado contra os R$ 70 a R$ 110 do asfalto —, a economia real aparece no médio prazo. Enquanto uma via de asfalto em Manaus exige manutenções anuais e um recapeamento total antes de completar 10 anos, o concreto permanece praticamente intacto, exigindo apenas selagens pontuais em suas juntas a cada década.
Em um horizonte de duas décadas, o custo total do asfalto (construção + dezenas de operações tapa-buraco + recapeamento) supera com folga o investimento no concreto. Além disso, a superfície clara do concreto reflete melhor a iluminação, permitindo uma economia de até 30% nos custos de energia elétrica pública e reduzindo o consumo de combustível de veículos pesados, que encontram menor resistência ao rolamento.
A Eficiência Pública e o Direito à Cidade
Como estudioso do Direito Digital e das novas regulações, entendo que a transparência e a eficiência são pilares da administração moderna. Manter um modelo de pavimentação que exige reparos mensais é uma forma ineficiente de gerir o erário. Precisamos de cidades inteligentes (Smart Cities) que utilizem materiais de alta performance, combatendo as ilhas de calor e garantindo que o imposto pago pelo cidadão não “escorra” pelo bueiro na primeira tempestade.
Manaus não pode mais ser refém do paliativo. Aprender com o modelo curitibano não significa copiar uma cidade, mas adotar a mentalidade de que a infraestrutura urbana deve ser definitiva. Uma rua sem buracos não é um luxo, é um direito do cidadão e um dever de eficiência do gestor.
A tecnologia existe. O conhecimento técnico está disponível. O que falta, talvez, é a coragem política de trocar o asfalto eleitoreiro, que brilha na inauguração e some na primeira tempestade, pelo concreto austero que sobrevive ao tempo e respeita o bolso do contribuinte.

Por Ronaldo Aleixo Jornalista, Especialista em Gestão e Políticas Públicas (Uninter-PR) e Especialista em Direito Digital (PUC-RS)





