Balbina, 40 Anos de Dano Crônico: Por Que a Afirmação de “Regeneração” É uma Falácia Científica e Política?
Esta semana ao divulgar meu artigo sobre o “monumento a insanidade” e suas contradições baseadas em estudos científicos e críticas dos ambientalistas, um amigo meu, sub secretário no Município de Presidente Figueiredo, simplesmente afirmou que toda essa catástrofe ambiental chamada: Hidrelétrica de Balbina está em franca REGENERAÇÃO. Então resolvi esticar mais a corda e farei quantas vezes forem necessárias.
A Usina Hidrelétrica do Metano não está se curando. Estudos mostram que a destruição continua, e o subsecretário do Município de Presidente Figueiredo, confunde deterioração com resiliência.
A Usina Hidrelétrica de Balbina, no Rio Uatumã (AM), é um emblema da engenharia equivocada e do desastre ambiental na Amazônia. Após quase quatro décadas de operação, a ideia de que a natureza em seu entorno estaria “se regenerando” é uma afirmação que desafia a ciência e ignora a realidade das comunidades afetadas.
É crucial entender: o impacto de Balbina não é um ferimento que cicatriza; é uma doença crônica que o próprio modo de operação da usina sustenta.
- A Falácia da Regeneração no Reservatório (Acima da Barragem)
O reservatório de 3.000 \text{ km}^2 (o lago) é o palco principal da tragédia. O subsecretário ignora dois processos científicos fundamentais:
A. A Fábrica de Metano (\text{CH}_4) Continua Ativa
A “regeneração” só seria possível se a decomposição da matéria orgânica inundada tivesse cessado. No entanto, estudos robustos mostram que Balbina continua sendo uma emissora brutal de Metano (\text{CH}_4). O processo é o seguinte: a floresta afogada não se decompôs de uma vez; ela se decompõe lentamente em ambientes anóxicos (sem oxigênio) no fundo do lago, sendo constantemente “reabastecida” por nova matéria vegetal que cai no reservatório. A Ruptura Metabólica Não se Fechou: enquanto a biomassa continuar se decompondo e o reservatório existir, a usina manterá seu status de emissor climático dez vezes pior que uma termoelétrica a fóssil (dada a potência do \text{CH}_4). A natureza não está se curando; ela está engasgada.
B. A Contaminação Crônica dos Peixes
A inundação criou um ambiente aquático instável e ácido. O fechamento da pesca comercial em 1997 é a prova social da ausência de regeneração. O lago não se tornou um ecossistema produtivo, mas sim um ambiente que gera problemas: a acidez da água corrói até as próprias turbinas da usina, gerando custos de manutenção altíssimos, e a cadeia alimentar no reservatório foi alterada, tornando a pesca perigosa para o consumo.
- O Desastre Continuado à Jusante (Abaixo da Barragem)
A afirmação do subsecretário é ainda mais insustentável quando olhamos para as áreas abaixo da barragem, onde residem as comunidades ribeirinhas, as “vítimas desta tragédia”.
O Efeito Sanduíche: Dano Crônico e Sistêmico
Pesquisas do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, como as de Jochen Schöngart) provaram que o dano é sistêmico e se estende por até 125 \text{ km} no Rio Uatumã. Este é o chamado “Efeito Sanduíche”. O modo de operação da usina sustenta o dano crônico em duas frentes:
Inundações Quase Permanentes: A usina, ao manter o nível da água artificialmente alto, inundou as florestas de igapó (florestas que suportam inundações temporárias). Este regime hídrico forçado tem levado à perda de 12% do igapó, pois a inundação permanente mata as árvores que não conseguem sobreviver sem o período de seca. O ecossistema dessas florestas está sendo destruído, não regenerado.
Secas Extremas: Em outros momentos, quando a usina precisa de energia, o rio é subitamente drenado, causando secas fora de época, matando a vida aquática e expondo o solo.
O resultado é que o rio está sendo manipulado em um ciclo vicioso de extremos (inundação permanente seguida de seca abrupta), o que impede a recuperação de espécies e florestas que dependem do pulso de inundação natural da Amazônia. Chamar isso de regeneração é distorcer o significado da palavra.
- A Ideologia Capitalista por Trás da Afirmação
Sob a perspectiva marxista, a fala do subsecretário não é apenas ignorância; é uma ideologia de manutenção do status quo.
Justificativa para a Inação: Se a natureza está “se regenerando”, o Governo e a concessionária (Eletrobrás/Eletronorte) não têm obrigação de intervir, reparar ou desativar a usina. A culpa pela crise é transferida para a “lenta” natureza, e não para o modelo de produção capitalista.
Negação do Passivo Social: A afirmação minimiza o sofrimento das 3.000 famílias que clamam por reparação. A natureza não se regenera para quem perdeu a casa, a fonte de alimento e a segurança.
A Verdade é Inegociável: A única forma de iniciar a regeneração do Rio Uatumã e reparar as famílias é por meio de uma decisão política radical: a desativação total da Usina de Balbina, conforme exigido por alguns moradores que já tomam consciência de tal situação no Ramal da Morena.
“Nos poucos 17 anos que atuei como ambientalista, de lá cunhei uma pensamento sobre a função trágica da hidrelétrica de Balbina e costumávamos a dizer de longe que a cena do impacto gerado a primeira vez que ela funcionou (vide vídeos no YouTube), aquela podridão indiscritível e mortes de todas as vidas possíveis, se dá até os dias de hoje durante 40 anos sem parar, sem cessar, mas em outras proporções. O movimento é o mesmo. Simplesmente o mesmo.”

Chega de meias-verdades e falácias de “regeneração”. A ciência exige a restauração. A justiça exige a reparação.
Por Rafael Medeiros | Comunicação Integrada.






