REPORTAGEM ESPECIAL | PORTAL CHUMBO GROSSO – Se nos palanques as siglas partidárias enchem a boca para discursar sobre “defesa da família”, “moralidade” e “proteção às mulheres”, os bastidores da política revelam uma realidade de pura conveniência eleitoral e silêncio ensurdecedor. O caso mais emblemático na Câmara Municipal de Manaus (CMM) atende pelo nome de Ubirajara Rosses do Nascimento Junior, o Coronel Rosses. Eleito vereador pelo Partido Liberal (PL) e pré-candidato a deputado federal, o oficial reformado da Polícia Militar carrega na bagagem um rastro de denúncias de violência doméstica registradas pela mãe de sua filha, Carla Trindade d’Oran.
A reportagem teve acesso exclusivo aos documentos oficiais que expõem uma extensa capivara policial. Diante de fatos tão graves, a pergunta que ecoa nos bastidores é: Como a executiva do PL aceitou a filiação e chancelou a candidatura de um cidadão com esse histórico documentado de agressões e ameaças?
O constrangimento político, que já tirava o sono da empresária e reitora Maria do Carmo Seffair — principal liderança do PL no Amazonas —, agora transpôs as fronteiras do estado e alcançou o coração da dinastia que comanda a direita nacional.
Da CMM ao Texas: A Placa e a Gravata de Fuzil
Em um movimento estratégico para capitalizar o apoio da militância conservadora e pavimentar sua candidatura a deputado federal, o Coronel Rosses viajou recentemente aos Estados Unidos para um encontro de alto escalão. Em solo americano, mais precisamente no estado do Texas — onde o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro cumpre agenda desde o ano passado —, o parlamentar manauara fez questão de entregar uma placa de honra ao mérito ao filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A honraria foi concedida em nome da Comissão de Segurança Pública da CMM, presidida por Rosses. Segundo o vereador, a homenagem reconhece a atuação firme de Eduardo Bolsonaro em pautas ligadas à segurança pública, à soberania nacional e à defesa da liberdade. Para selar a aliança, Rosses ainda presenteou o “03” com a gravata oficial da chamada “bancada da bala” — acessório que traz estampada a silhueta de um fuzil M4 —, e adiantou que planeja estender as homenagens aos demais membros da família Bolsonaro.
O que Eduardo Bolsonaro certamente não sabia ao sorrir para as fotos divulgadas nas redes sociais é o teor do “currículo” oculto que o seu homenageante ostenta nas delegacias de Manaus.
O Dossiê da Violência: O Histórico dos Boletins de Ocorrência
Os documentos oficiais revelam uma rotina de terror psicológico e violência física, camuflada sob a justificativa de disputas pela guarda da filha menor do ex-casal. Estes fatos foram originalmente trazidos a público em uma detalhada investigação jornalística publicada pela Revista Cenarium, e os registros policiais mostram o padrão das acusações:
- 12/06/2017 (BO Nº 17.E.0170.0004991 – DECCM): Carla d’Oran relata ter sido ofendida moralmente com palavras de baixo calão desferidas pelo então ex-companheiro no interior de sua residência, motivado por discussões sobre a filha.
- 31/08/2017 (BO Nº 17.E.0170.0007552 – DECCM): A situação escala para a agressão física. A vítima relata ter recebido um tapa no rosto e xingamentos como “vagabunda”. O caso gerou a formalização de um pedido de medidas protetivas de urgência.
- 13/05/2018 (BO Nº 18.W.0117.0062675 – Delegacia Interativa): O Coronel teria usado de sua influência funcional para acionar um delegado de polícia civil em pleno Aeroporto Internacional de Manaus para tentar impedir o embarque de Carla e da filha. Por telefone, proferiu ameaças de morte: “se acontecesse algo com a nossa filha, eu te mataria”, além de xingamentos pesados.
- 26/06/2018 (BO Nº 18.E.0170.0005637 – DECCM): Nova agressão verbal e ameaça explícita no momento da entrega da filha. O parlamentar teria dito em tom intimidador: “Essa filha vai ficar sem a mãe”.
- 10/08/2018 (BO Nº 18.E.0148.0004903 – 12º DIP): Rosses utilizou viaturas e guarnições da Polícia Militar para coagir a ex-companheira na portaria de seu condomínio. O abuso de aparato foi tamanho que um oficial da PM presente (Tenente-Coronel Romero) considerou a conduta inadequada e orientou a moradora a denunciar o caso na Corregedoria.
(Nota de contextualização: Na tentativa de contra-atacar, o militar registrou ocorrências inversas acusando a ex-companheira de furto de fotos e, posteriormente, de supostas lesões corporais na menor, cujos trâmites exigiram exames de corpo de delito).
O Contra-Ataque de Gabinete: A Guerra pelas Fotos Subtraídas
Tentando construir uma narrativa de reviravolta para mascarar o rastro de violência, a defesa do militar acionou a máquina policial para tentar carimbar a ex-companheira como criminosa. Conforme o Boletim de Ocorrência nº 17.E.0331.0000526 (registrado no 23º DIP), os papéis se inverteram temporariamente: Rosses foi à delegacia acusar Carla d’Oran de ter invadido sua intimidade e subtraído fotos pessoais diretamente de sua residência. Na queixa, o agora vereador alegou que a mãe de sua filha estava utilizando esse acervo fotográfico para difamá-lo, espalhar falsas afirmações e denegrir sua imagem perante terceiros. A manobra jurídica, típica em casos onde o agressor tenta se passar por vítima, transformou arquivos de fotos pessoais em munição de uma guerra de bastidores que — longe de provar sua inocência — apenas confirma o nível de toxicidade e a gravidade do inferno particular vivido pelo ex-casal.
O Fator Eduardo Bolsonaro: Como Reagirá o Clã do Texas?
Nos bastidores da política nacional, o pragmatismo muitas vezes caminha lado a lado com a blindagem de imagem. A grande incógnita que agora paira sobre o PL é: Como reagirá Eduardo Bolsonaro quando o teor completo desse dossiê chegar à sua mesa no Texas?
Especialistas em articulação política apontam que a reação imediata do clã Bolsonaro tende a ser de profundo distanciamento e fritura silenciosa. A bandeira da “defesa da família” e do combate intransigente à criminalidade são os pilares intransponíveis do bolsonarismo. Para uma liderança de projeção internacional como Eduardo, manter-se atrelado à imagem de um político local carimbado por reiteração de denúncias da Lei Maria da Penha é um risco reputacional inaceitável.
A tendência é que a entrega da placa e da gravata de fuzil seja tratada como um mero protocolo institucional de gabinete, empurrando o Coronel Rosses para a geladeira política do partido. Dificilmente Eduardo ou Jair Bolsonaro darão palanque público, gravarão vídeos de apoio ou subirão em comícios ao lado de um candidato cujo histórico pessoal contradiz o discurso moral da sigla. Rosses corre o risco de descobrir que, em Brasília e no Texas, o aperto de mão caloroso de hoje se transforma no abandono político de amanhã.
A Conta Que Não Fecha: O Silêncio do PL
O PL parece sofrer de amnésia crônica e seletiva no Amazonas. Ao dar legenda e estrutura para o Coronel Rosses, a executiva assinou um termo de conivência. Agora, o constrangimento não é mais apenas local. Bate diretamente à porta de Maria do Carmo Seffair e, por tabela, queima a imagem do partido nacionalmente.
O Chumbo Grosso questiona diretamente a executiva do PL e Maria do Carmo Seffair:
- Maria do Carmo Seffair, na condição de jurista, advogada e líder maior do partido no estado, concorda com a permanência e a validação política de parlamentares que ostentam esse histórico policial contra mulheres?
- O PL nacional e a família Bolsonaro manterão o apoio à pré-candidatura federal de Rosses após a exposição pública dessas graves denúncias de agressão e abuso de poder funcional?
- Haverá a abertura de um procedimento interno no Conselho de Ética do partido para apurar a conduta do Coronel Rosses, ou os votos falarão mais alto do que a dignidade das mulheres amazonenses?
A população de Manaus exige respostas claras. O espaço está aberto para as justificativas do partido e de suas lideranças — se é que elas existem.
FONTE: Boletins de Ocorrência anexos lavrados perante a Polícia Civil do Estado do Amazonas (DECCM/DPCA). Investigação jornalística original publicada em 2020 pela Revista Cenarium.

O Outro Lado: O Espaço para o Direito de Resposta
Em respeito aos princípios constitucionais do contraditório, da ampla defesa e do bom jornalismo, o portal Chumbo Grosso deixa este espaço aberto e à disposição do vereador Coronel Rosses, da pré-candidata Maria do Carmo Seffair e da executiva do Partido Liberal (PL) no Amazonas para que apresentem formalmente suas versões, esclarecimentos ou notas de posicionamento sobre os fatos e documentos narrados nesta reportagem.





