Belém — As recentes declarações do senador e candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL), durante o debate da TV Globo na última sexta-feira (23), desencadearam forte repercussão política e reações de lideranças no Pará. Na ocasião, o parlamentar criticou duramente as condições de saneamento e limpeza da capital paraense, afirmando que a cidade “fede” e classificando como “desumana” a presença de esgoto a céu aberto e lixo acumulado.
Em resposta, o prefeito de Belém, Igor Normando (MDB), publicou um vídeo nas redes sociais rebatendo as acusações. Normando classificou a postura do senador como “arrogante” e “prepotente”, argumentando que o candidato desconhece a realidade local.
Contraponto nas Redes Sociais
Apesar do embate político e das declarações oficiais, conteúdos que circulam nas redes sociais trazem registros sobre o cotidiano de áreas da cidade. Em publicação recente, o perfil @oleaobelem divulgou imagens gravadas em um dos bairros da capital.
No vídeo, o apresentador aponta para pilhas de resíduos e urubus no local, afirmando que “Belém está abandonada” e que “urubu não é patrimônio, é sinônimo de sujeira e lixo”. A publicação destaca o contraste entre a narrativa dos gestores públicos e os problemas enfrentados diariamente pela população em relação ao descarte de resíduos e à infraestrutura urbana.
Do Impasse de Marituba ao Pós-COP30: A Crise Histórica do Lixo e do Saneamento na Grande Belém
O debate em torno da limpeza urbana e do saneamento básico em Belém resgata um gargalo estrutural e histórico que se arrasta há anos na Região Metropolitana de Belém (RMB).
Já em agosto de 2023, reportagens alertavam para o colapso do sistema de destinação de resíduos. Na época, as prefeituras de Belém, Ananindeua e Marituba enfrentavam o prazo final para o encerramento das atividades do Aterro Sanitário de Marituba, responsável por receber os resíduos de cerca de 1,9 milhão de moradores.
O Impasse de Marituba e o Projeto de Bujaru
Diante do encerramento previsto do aterro em Marituba por determinação judicial, a empresa responsável iniciou estudos para instalar uma nova central de resíduos em Bujaru, a cerca de 90 km de Belém. O projeto previa R$ 50 milhões em investimentos e vida útil de 30 anos para processar 18 milhões de toneladas de resíduos.
A proposta gerou forte resistência de comunidades locais e quilombolas de Bujaru, preocupadas com os impactos ambientais na pesca e no modo de vida tradicional. Na ocasião, especialistas e o Ministério Público do Estado do Pará (MPPA) alertaram que mudar a localização do aterro não resolveria a raiz do problema sem investimentos em educação ambiental e na implementação da coleta seletiva.
Desafios Persistentes na Região Metropolitana
Mesmo após a visibilidade de grandes eventos sediados na capital, o gerenciamento de resíduos sólidos e o saneamento básico continuam sendo desafios diários:
- Pressionamento do Aterro de Marituba: O aterro continuou recebendo altos volumes de rejeitos urbanos, operando no limite de sua capacidade e mantendo o histórico de reclamações de moradores do entorno devido ao odor e riscos de contaminação.
- Baixos Índices de Reciclagem: Dados da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) indicam que menos de 1% dos resíduos sólidos produzidos na Grande Belém é destinado à reciclagem.
- Passivos Urbanos e Periferias: Bairros periféricos continuam convivendo com pontos viciados de descarte irregular de lixo, alagamentos e esgoto a céu aberto.
- Apoio às Cooperativas: Trabalhadores da reciclagem e catadores buscam maior apoio infraestrutural para ampliação da triagem de materiais.
Entre a Disputa Política e as Soluções para a População
Enquanto o cenário eleitoral movimenta discursos e contrapontos entre lideranças estaduais e nacionais, ambientalistas e urbanistas reforçam que a superação da crise dos resíduos na Grande Belém exige ações contínuas: ampliação da coleta seletiva porta a porta, estruturação de cooperativas e investimentos consistentes em saneamento e infraestrutura básica.





