Instituto Veritá acumula condenações e tem pesquisas barradas em 14 estados

No Amazonas o instituto só puxa canoa para Maria e Alberto Neto.

Capitão Alberto Neto (PL) e Maria do Carmo (Novo) agradecem os votos dos eleitores de Manaus. (realtime1)

Responsável pelo maior número de pesquisas nas eleições de 2022, o Instituto Veritá já teve levantamentos proibidos de serem divulgados por irregularidades técnicas e indícios de fraude só este ano em 13 estados e no Distrito Federal. Apenas na quarta-feira (12/8), os Tribunais Regionais Eleitorais (TRE) do Rio Grande do Norte, Amazonas e de Sergipe proibiram o Veritá de divulgar resultados de sondagens de votos para governo e Senado.

Em ambos os estados, a Justiça Eleitoral entendeu que a amostra coletada pelo Veritá divergia drasticamente da realidade estadual, super-representando eleitores ricos e escolarizados.

Em Sergipe, o instituto elevou artificialmente a proporção de eleitores com ensino superior completo ou incompleto para 31,1% em sua amostra, muito acima do índice de 19,2% fornecido pela sua fonte declarada de dados, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) de 2025 – o TSE aponta que apenas 12,82% do eleitorado sergipano possui esse grau de instrução.

Por isso, o TRE-SE proibiu a divulgação da pesquisa registrada na última quinta-feira (7). Mas um novo levantamento, com os mesmos critérios tidos como irregulares, foi computado nesta quarta-feira (12) para ser publicado na próxima semana.

No Rio Grande do Norte, o levantamento incluiu 34% de eleitores com ensino superior (enquanto a média real do cadastro do TSE é de 13,73%) e indicou 25% de eleitores na faixa de maior renda, o dobro de outros institutos. A decisão também impõe multa de mais de R$ 58 mil por reincidência, uma vez que o Veritá já havia sido proibido de divulgar pesquisas anteriores no estado pelas mesmas irregularidades.

As pesquisas do Veritá são realizadas por telefone, e decisões das justiças eleitorais de estados como Piauí, Amazonas e Pernambuco apontam que o instituto não oferece transparência nem detalhamento suficiente sobre como gera, seleciona e aborda os contatos telefônicos para a realização de suas sondagens.

Na Paraíba, a Justiça Eleitoral identificou que o Veritá registrou metodologias excessivamente genéricas, omitindo inicialmente se a coleta seria presencial, telefônica, eletrônica ou híbrida. Ao explicar que faria a pesquisa pelo telefone, não detalhou como faz a seleção e o sorteio dos contatos, o controle de duplicidade ou a confirmação do domicílio eleitoral de quem atende a ligação.

Para o TRE do Tocantins, a falta de clareza na indicação da fonte pública de dados configura “vício substancial, porque obstaculiza a fiscalização externa (controle social) e ofende o dever de transparência”. Ali, uma pesquisa teve coleta de dados entre 29 de março e 4 de abril, mas a data prevista de divulgação dos resultados foi fixada para o dia 3 de abril, antes do fim das entrevistas.

Procurado, o Veritá se defendeu alegando que “cada juiz e cada tribunal está tendo um entendimento” e que “no final agente (sic) mostra e acerta” – leia nota ao final da reportagem. Levantamento do PollsterGraph, um agregador de pesquisas da concorrente AtlasIntel, coloca o Veritá em 72º entre os institutos com o melhor desempenho nas eleições passadas.

Distribuição geográfica das pesquisas

Formalmente, o Veritá registra no sistema do TSE que utiliza o método probabilístico PPT (Probabilidade Proporcional ao Tamanho), alegando que sua amostra reflete com fidelidade o eleitorado de cada estado, o que permite a utilização do fator de ponderação 1 – ou seja, o instituto não faz ajuste matemático posterior para corrigir distorções após a coleta.

Mas isso tem sido contestado em decisões dos tribunais regionais. No Espírito Santo, o Veritá concentrou 42,13% de todas as entrevistas em Vitória, que tem apenas 8,89% do eleitorado capixaba. Enquanto isso, os municípios de Serra e Vila Velha, os dois maiores colégios eleitorais do estado, não receberam uma única entrevista.

Em seu voto, o jurista Hélio João Pepe de Moraes apontou que “a concentração de quase metade da amostra na Capital não é obra da aleatoriedade, mas decorrência de escolha no desenho da coleta”.

Mas o problema não é exclusivo do Espírito Santo. Processos em estados como Sergipe, Pernambuco, e Paraíba apontaram que os questionários aplicados por telefone pelo Veritá sequer continham perguntas sobre o bairro, endereço ou setor censitário do eleitor.

Indícios de fraudes

No Amazonas, a divulgação dos resultados de pesquisa feita pelo Veritá foi proibida pela Justiça Eleitoral depois que análise forense contratada pelo PSD revelou cerca de 380 pares consecutivos de linhas absolutamente idênticas em todos os 28 campos do registro na planilha pública registrada pelo instituto.

Isso significa que 62% de toda a amostra declarada (de 1.220 entrevistas) consistia em dados duplicados em série, repetindo exatamente as mesmas respostas para as 23 perguntas. A Justiça Eleitoral verificou o óbvio: tal padrão é estatisticamente implausível.

“A magnitude do padrão descrito – 62% da amostra declarada com registros duplicados em série – é incompatível, em qualquer juízo de verossimilhança, com o funcionamento de uma unidade automatizada de reconhecimento de voz realizando entrevistas independentes, tal como a metodologia declarada descreve”, apontou a relatora Maria Auxiliadora dos Santos Benigno.

Além disso, a planilha tinha a coluna “telefone” completamente vazia, o que entrava em contradição direta com o relatório oficial do Veritá que afirmava que 20% das entrevistas telefônicas haviam sido auditadas.

Candidaturas fictícias e respostas estimuladas

Além das falhas estatísticas, o Veritá tem sido denunciado e condenado por incluir nas pesquisas perguntas que supostamente induzem o eleitor para determinadas respostas, além de apresentar candidaturas inexistentes.

No Distrito Federal, o bloco final do questionário tinha perguntas que detalhavam a Operação Dracon e a compra do Banco Master pelo BRB antes de perguntar se o eleitor achava que a governadora Celina Leão “pode estar envolvida nas denúncias da Operação Dracom” e se ele tinha ouvido mais “notícias negativas ou positivas” sobre ela.

A relatora Leonor Aguena destacou que essa arquitetura gerou enviesamento metodológico nítido, pois o entrevistado era induzido a um estado mental negativo por perguntas sucessivas desabonadoras nominalmente associadas à governadora antes de emitir sua avaliação final. A divulgação da pesquisa foi suspensa.

No Espírito Santo, o instituto incluiu os prefeitos Euclério Sampaio (de Cariacica) e Arnaldinho Borgo (de Vila Velha) em cenários de intenção de voto para o cargo de governador do estado em sondagem realizada mais de 20 dias depois do prazo para que eles se desincompatibilizassem. Logo, quando eles já eram sabidamente inelegíveis. Para a Justiça eleitoral, a conduta “compromete a integridade e a transparência da pesquisa eleitoral, criando um cenário de disputa eleitoral fictício”.

O mesmo aconteceu no Mato Grosso do Sul, onde Simone Tebet foi incluída como concorrente ao Senado pelo MDB quando já havia assinado filiação ao PSB de São Paulo. A divulgação da pesquisa chegou a ser proibida, mas a decisão acabou revertida entre outras razões porque o Agir, que entrou com o pedido de suspensão, não comprovou a filiação de Tebet em São Paulo.

Levantamento da coluna encontrou contestações contra pesquisas do Veritá em 18 estados este ano. Apenas em dois – Maranhão, Paraná – o instituto não teve a divulgação proibida ao menos uma vez.

O que diz o Veritá

Adriano Silvoni, dono do Veritá, disse que não poderia atender a coluna e que o assunto fosse adiantado por mensagem. Ao ser informado da pauta, enviou a mensagem abaixo antes de se despedir:

Se quiser contar que das [sic] mais de 200 registros teve mais de 50 impugnações e dessas mais de 70% revertidas. Cada juiz e cada tribunal está tendo um entendimento. Tem TREs legislando inclusive sobre pesquisa de presidente que não é competência deles. Da nossa parte, agente [sic] não espera muito menos que isso, o instituto é independente e o que mais faz pesquisas por iniciativa própria, muitas UFs agente [sic] tem pedidos de impugnação de todos os candidatos.

No final agente [sic] mostra e acerta. Como 2018 só nos acertamos, primeiro turno de 2022 mesma coisa. Segundo turno melhor eu não te contar o que vi. Sobre 2024, fomos o primeiro a mostrar que Pablo estava na briga, ele só ficou fora por conta de um laudo. Segundo turno de 2024 fomos o único a fazer as 51 cidades que teve segundo turno. E acertamos 49 de 51. Sem contar 2010/2014/2016. Estamos tranquilos porque temos metodologia sólida, testada e previsões precisas. ‘Temos história’“.

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