O DITO “NOVA FORÇA DA ESQUERDA” É DELEGADO, MAS NÃO TRABALHA EM DELEGACIA HÁ ANOS

MANAUS (AM): A política amazonense tem sido palco de tentativas de construção de novas lideranças sob o manto de discursos de renovação e apelo digital. Entre os nomes que buscam se projetar nesse cenário está o do Delegado Tayah, filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT).

No entanto, por trás da imagem impulsionada por curtidas, engajamentos em vídeos curtos e discursos inflamados nas redes sociais, a trajetória do político carrega contradições que alimentam intensos questionamentos sobre sua real atuação profissional e compromisso com o serviço público.

Apesar de utilizar ostensivamente o título profissional de “Delegado” como seu principal ativo de propaganda e marca eleitoral, matérias jornalísticas e registros do setor público revelam que Tayah não atua no dia a dia da atividade policial em delegacias há anos.

A desconexão entre o título exibido nos palanques e a rotina da segurança pública torna-se ainda mais evidente diante das disputas judiciais em que o policial se envolveu para evitar sua transferência para comarcas do interior do estado — uma realidade enfrentada rotineiramente por diversos servidores da categoria.
Votação expressiva na capital não esconde a falta de penetração no interior.

Nas eleições de 2026, Tayah candidatou-se a uma vaga na Câmara dos Deputados, alcançando 36.740 votos (1,73% dos votos válidos). O número o colocou como o mais votado da Federação Brasil da Esperança no Amazonas, porém insuficiente para garantir uma cadeira no Congresso Nacional, terminando na 18ª colocação.

A distribuição dos seus votos expõe outro gargalo relevante: dos 36.740 votos recebidos, 32.344 (88%) concentraram-se na capital, Manaus. No interior do estado, a votação foi irrisória (4.396 votos distribuídos entre os demais 61 municípios). A expressiva rejeição ou desconhecimento do seu nome no interior reflete não apenas o alcance restrito de suas redes fora do centro urbano, mas também o desgaste gerado pela recusa pública e judicial em servir nas delegacias do interior amazonense, onde a presença de autoridades policiais é historicamente cobrada pela população.

Da bolha digital às manifestações: palco político x serviço público
A estratégia de comunicação de Tayah busca transformar números virtuais em capital político. Segundo dados divulgados por sua assessoria, seu perfil no Instagram saltou de 41 mil seguidores no início da campanha para mais de 130 mil. Contudo, analistas políticos ponderam que volume de seguidores e métricas de engajamento não significam automaticamente aprovação popular ou eficiência de gestão, podendo refletir apenas a dinâmica de algoritmos voltados à polarização ideológica.

Seu discurso adota um tom combativo contra o bolsonarismo e figuras da direita local, alinhando-se a agendas nacionais e participando de atos de rua ao lado de militantes progressistas em Manaus. No entanto, críticos apontam que a priorização da militância política e da produção contínua de conteúdo para a internet contrasta com o afastamento prolongado das funções de investigação e atendimento à população nas delegacias de polícia.

Formação acadêmica e o desafio do discurso de segurança pública
Mestre em Segurança Pública, professor e policial civil de carreira, Tayah tenta construir a imagem de um especialista capaz de formular políticas públicas para o setor a partir de uma ótica progressista. Entretanto, o fato de recorrer à via judicial para questionar atos administrativos de remoção e se manter distante do trabalho policial de campo enfraquece o apelo do seu discurso junto a setores da própria segurança pública e aos eleitores que cobram presença efetiva do Estado nas áreas mais isoladas do Amazonas.

As incertezas do futuro político
Ao final do pleito de 2026, Delegado Tayah emerge como uma figura de visibilidade na capital, mas marcada pela contestação de sua práxis profissional e pela dificuldade de articulação com o interior do estado.

A transição de uma figura ancorada no apelo das redes sociais para um quadro político com representatividade real dependerá de sua capacidade de responder às cobranças da sociedade sobre seu papel como servidor público e de demonstrar que seu compromisso com o Amazonas vai além do ambiente virtual e dos limites territoriais de Manaus.

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