Por Redação | Com reportagem de Ronaldo Aleixo (DRT 96423/SP) – AMAZONAS — O Plano Estratégico de Desenvolvimento do Amazonas, liderado pelo candidato Omar Aziz (PSD), apresenta-se ao eleitorado como um documento amplo e estruturado. No Eixo 1 (Setores Estratégicos e Inovação), o plano aposta na modernização da economia, citando Inteligência Artificial, Bioeconomia, Ciência e Tecnologia. No Eixo 2 (Segurança Pública), defende uma nova territorialização com o resgate do programa Ronda Amazonas.
Contudo, o contraste entre a teoria dos relatórios e a prática da gestão pública impõe um duro teste de credibilidade às propostas da campanha, ressuscitando polêmicas e passivos do próprio histórico administrativo do candidato — e desencadeando embates diretos nos debates eleitorais deste ano com ex-aliados.
Eixo 1: A Promessa da “Revolução Tecnológica e Bioeconomia”
A estrutura do Eixo 1 do plano de governo de Omar Aziz traz como vitrine a inovação tecnológica e o aproveitamento sustentável dos recursos naturais do estado:
- Ciência, Tecnologia e Inteligência Artificial: O plano dedica capítulos específicos à “Inteligência Artificial e transformação digital no setor público e produtivo” (pág. 517) e à “Ciência, tecnologia e inovação para o desenvolvimento” (pág. 470).
- Bioeconomia e Recursos Naturais: Propõe o incentivo ao segmento de fitofármacos, fitocosméticos e inovação de base florestal (pág. 400), aliado à valoração econômica dos serviços ambientais (pág. 441).
- Infraestrutura e Competitividade: Promete a modernização da logística regional (pág. 115), a atração de novos investimentos (pág. 582) e a defesa da competitividade do modelo Zona Franca de Manaus diante dos impactos da Reforma Tributária (pág. 42).
O Marketing do “Polo de IA” e o Fogo Cruzado no Debate: Omar vs. David Almeida
Apesar de rechear o documento com jargões tecnológicos e discursos de futuro, Omar Aziz acabou reacendendo um dos episódios mais emblemáticos de uso ineficiente de recursos públicos no Amazonas. Para tentar dar concretude à promessa de transformar o estado em uma referência tecnológica, o candidato prometeu reiniciar as obras e converter o esqueleto abandonado da Cidade Universitária da UEA, em Iranduba, no maior polo da Região Norte em Inteligência Artificial, citando até mesmo recentes diretrizes da China para embasar a proposta.
“Hoje a inteligência artificial é uma realidade. Vamos tornar a Cidade Universitária a maior universidade do Norte em inteligência artificial. A Amazônia é uma coisa que se vende bem, então você tem condições de trazer para cá grandes empresas mundiais”, declarou Omar.
O Jogo de Empurra e as Contradições de um Passado em Comum
Nos debates deste ano, o tema virou munição e gerou acusações cruzadas. Tentando esquivar-se da responsabilidade pelo colapso da obra, Omar Aziz acusou David Almeida de ter efetuado pagamentos de fatura da Cidade Universitária durante a sua gestão.
A acusação, porém, joga luz sobre o histórico de alianças e contradições do grupo político. Omar Aziz, José Melo e David Almeida faziam parte do mesmo grupo partidário e governamental. David foi líder do governo Omar na Assembleia Legislativa do Amazonas (ALEAM) e, posteriormente, assumiu o Governo do Estado como “governador tampão” em 2017, após a cassação de Melo — período em que deu continuidade às rotinas administrativas do erário estadual.
R$ 147 Milhões no Lixo e o Embargo Federal
Para além do empurra-empurra de faturas entre ex-aliados, o fato é que o projeto idealizado por Omar em 2012 nasceu sob o signo da pressa eleitoral, sem a conclusão dos estudos ambientais e arqueológicos exigidos pela legislação federal:
- Embargo do MPF e da Justiça Federal: A licença emitida pelo órgão estadual (IPAAM) foi anulada por ignorar impactos em Áreas de Preservação Permanente (APP), nascentes e sítios arqueológicos sem a supervisão do IPHAN.
- R$ 147 milhões consumidos pela vegetação: Ao longo de cinco gestões estaduais (Omar Aziz, José Melo, David Almeida, Amazonino Mendes e Wilson Lima), o canteiro de obras acumulou R$ 147 milhões do erário, visíveis hoje apenas no concreto deteriorado que é engolido pelo mato.
- Complexidade de Desbloqueio: Para erguer qualquer parede no local, o futuro governo precisará assinar um complexo Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o MPF, refazer do zero o Estudo de Impacto Ambiental (EIA/RIMA), abrir nova licitação e provar ao Tribunal de Contas que o concreto exposto há mais de oito anos ao sol e à chuva ainda possui segurança estrutural.
Eixo 2: Diagnóstico Crítico na Segurança e Gargalos Operacionais
No Eixo 2, o plano trata do diagnóstico da Segurança Pública, propondo a divisão do estado em 4 Territórios Funcionais (Região Metropolitana de Manaus, Faixa de Fronteira, Divisas e Calhas de Rios) e a reestruturação do Programa Ronda Amazonas nas vertentes Bairros, Municípios, Rios, Social e Digital.
Contudo, assim como no Eixo 1, o próprio documento reconhece graves limitações operacionais do Estado para executar o plano:
- Déficit de 57,1% no Efetivo: As forças estaduais enfrentam falta crônica de pessoal. A Polícia Civil opera com apenas 39% de suas vagas preenchidas, enquanto o efetivo pronto da Polícia Militar soma apenas 6.707 praças em todo o território.
- Recursos Retidos: O relatório revela que o Amazonas tem mais de R$ 128,9 milhões paralisados em contas do Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP) por falta de capacidade técnica e execução orçamentária.
Promessas Fáceis versus Realidade Complexa
Tanto nas propostas do Eixo 1 (Tecnologia, IA e Bioeconomia) quanto nas do Eixo 2 (Segurança Pública e Ronda Amazonas), o Plano de Governo de Omar Aziz demonstra habilidade em mapear conceitos atrativos.
No entanto, ao tentar vender soluções simples para problemas estruturais e terceirizar a culpa de um “elefante branco” de R$ 147 milhões para ex-aliados de seu próprio grupo político, o candidato evidencia a distância entre o discurso eleitoral e as complexas amarras jurídicas, financeiras e históricas do Estado do Amazonas.





