Nem Lula, nem Bolsonaro: O “tarifaço” dos EUA é o preço das falhas da esquerda e da direita – Por: Ronaldo Aleixo

A confirmação, pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), da aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre uma extensa lista de produtos brasileiros acendeu o estopim de uma nova — e previsível — guerra de narrativas no cenário político nacional. Como já virou praxe no Brasil contemporâneo, a primeira reação de governistas e oposicionistas foi buscar um culpado no lado oposto do espectro político. A realidade factual, no entanto, ignora o “Fla-Flu” partidário.

O chamado “tarifaço” americano, fruto de uma minuciosa investigação de um ano baseada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 dos EUA, não é o tropeço diplomático de uma única gestão. É, em última análise, a fatura cobrada por políticas estruturais e gargalos históricos do Estado brasileiro — decisões e omissões que cruzam as fronteiras entre a direita e a esquerda.

A inovação que incomodou Wall Street (O legado da direita)

Do lado direito do espectro, a grande vitrine econômica dos últimos anos serve agora de munição para o protecionismo norte-americano. O Pix, implementado em 2020 sob o governo de Jair Bolsonaro e a condução de Roberto Campos Neto à frente de um Banco Central autônomo, é um sucesso incontestável de modernização e inclusão bancária.

Contudo, para o USTR — historicamente pressionado pelo poderoso lobby das gigantes de cartões e sistemas de pagamento sediadas em Nova York —, a plataforma estatal, gratuita e instantânea tornou-se um alvo. Sob a ótica americana, o ecossistema do Pix sufocou o espaço de crescimento das multinacionais privadas de pagamento no mercado nacional. O que o Brasil celebra como soberania e avanço tecnológico, os EUA classificaram como barreira comercial desleal.

A cicatriz ambiental e os impasses regulatórios (O desafio da esquerda)

Por outro lado, a atual gestão de Luiz Inácio Lula da Silva, que balizou seu retorno ao plano internacional sob a promessa de uma governança climática global implacável, esbarrou nas complexidades crônicas do território nacional. O relatório final do USTR fez questão de colocar o desmatamento ilegal e a falha histórica na aplicação rigorosa de leis ambientais como um dos pilares de sustentação para as sanções comerciais.

Soma-se a isso a manutenção de barreiras protecionistas internas antigas, como a blindagem ao mercado de etanol nacional, que desafia os produtores do Corn Belt americano há décadas. A retórica ambiental internacional, portanto, não foi suficiente para blindar o país da agressiva política externa e comercial adotada por Donald Trump.

O Brasil como alvo geopolítico

Ao analisar o cenário sem as lentes da paixão partidária, fica evidente que o governo norte-americano utilizou argumentos técnicos de conveniência para salvaguardar seus próprios interesses agrícolas, tecnológicos e financeiros. O USTR pune o Brasil pelo que o país é em sua totalidade institucional: um competidor agroambiental robusto e um laboratório de inovações financeiras independentes.

Reduzir o tarifaço a um erro exclusivo do “governo atual” ou do “governo anterior” é um reducionismo que empobrece o debate público. O Pix (obra da direita) e os persistentes gargalos ambientais e regulatórios (desafios da esquerda) foram, juntos, a matéria-prima que os Estados Unidos precisavam para erguer seus muros comerciais. No tribunal do comércio global, a conta sobrou para o Estado brasileiro — e ela não escolhe ideologia.

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