A recente guerra de narrativas nas redes sociais sobre a segurança pública no Amazonas ganhou um capítulo que mistura preciosismo técnico e uma boa dose de malabarismo político. Ao tentar rebater um vídeo do senador Omar Aziz — que cobrou o funcionamento 24 horas de delegacias —, o deputado estadual Delegado Péricles usou sua experiência policial para apontar um erro técnico do adversário, mas acabou tropeçando na própria linha do tempo ao tentar blindar seus aliados, o ex-governador Wilson Lima e o atual mandatário, Roberto Cidade.
No vídeo gravado para suas redes, Péricles utilizou um argumento correto do ponto de vista operacional: explicou que a Delegacia de Roubos e Furtos, por ser uma unidade especializada em investigações complexas, não funciona como plantão de pronto-atendimento — papel que cabe aos Distritos Integrados de Polícia (DIPs). Até aí, uma aula técnica. O problema começou quando o parlamentar tentou transformar o debate institucional em munição eleitoral.
A conveniência da “gestão passada”
Para justificar o fato de a delegacia especializada ostentar uma placa de “plantão 24 horas” mesmo estando fechada, Péricles disparou que o erro e o sucateamento da estrutura “já vêm da gestão passada”. É nesse ponto que a retórica esbarra nos fatos.
A tentativa de empurrar a culpa para um passado nebuloso ignora o óbvio: a “gestão passada” no Amazonas tem nome e sobrenome, e chama-se Wilson Lima — governante que comandou o estado de 2019 até abril de 2026 e de quem Péricles sempre foi aliado de primeira hora na Assembleia Legislativa (Aleam). Se há falta de efetivo, se faltam policiais concursados nas ruas ou se delegacias funcionam de forma precária, a responsabilidade direta recai sobre o grupo político que o próprio deputado sustentou nos últimos sete anos.
Todo mundo no mesmo pacote
Ao tentar carimbar Omar Aziz como “lacrador”, Péricles acabou fazendo uma defesa indesejada do retrocesso. O deputado esqueceu de mencionar que, enquanto os problemas estruturais da Polícia Civil se acumulavam, o atual governador, Roberto Cidade, presidia a Aleam com mãos firmes, chancelando o orçamento e as diretrizes do governo de Wilson Lima.
O movimento do Delegado Péricles deixa claro o duplo padrão que move o xadrez político local:
- Silêncio no passado: Enquanto o grupo de Wilson Lima e Roberto Cidade geria a segurança pública, as cobranças contundentes por convocações e melhorias eram tratadas em gabinetes fechados para evitar o desgaste da base governista.
- Discurso de ocasião agora: Com a dança das cadeiras de 2026, tenta-se criar a ilusão de que Roberto Cidade lidera um “novo governo”, totalmente desvinculado das falhas que ele mesmo ajudou a chancelar como chefe do Legislativo.
No fim das contas, a tentativa de desqualificar a cobrança de Omar Aziz acabou funcionando como um bumerangue político. Para quem acompanha os bastidores sem viseiras, ficou evidente que o Delegado Péricles faz parte do mesmo pacote — do anterior e do atual —, e que o malabarismo verbal para poupar Wilson Lima e Roberto Cidade só serviu para confirmar que, na política amazonense, a culpa é sempre dos outros, mesmo quando os aliados acabaram de deixar a cadeira.
A voz das redes: Internautas cobram a conta do grupo governista A tentativa de usar o tecnicismo para abafar a denúncia, no entanto, não colou com o público. Nas redes sociais, a reação dos internautas desidratou o discurso do parlamentar, apontando o dedo para a omissão coletiva da base governista. Enquanto Péricles tentava justificar a delegacia fechada como um “equívoco isolado de sinalização”, seguidores lembraram que o estado “tá cheio de placa equivocada” e que diversos DIPs de bairro seguem sem atendimento 24 horas após quase oito anos da gestão de Wilson Lima. A cobrança mais dura veio dos aprovados no concurso da segurança pública: a população cobrou diretamente o deputado e o governador Roberto Cidade pela não nomeação de quem já concluiu o curso de formação, alertando para o prazo de validade do certame que expira em 1º de julho de 2026. No tribunal da internet, o carimbo de “omisso” sobrou tanto para o Executivo quanto para os deputados que fingem fiscalizar agora o que ignoraram no passado.

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