
Por Edvania Barbosa Oliveira Rage – Com a facilidade para comprar por meio de cartões de crédito parcelados, empréstimos rápidos oferecidos por aplicativos bancários, financiamentos “sem entrada” e até mesmo compras por compulsão, o endividamento no Brasil deixou, nos últimos anos, de ser exceção para se tornar rotina na vida de milhões de famílias. No entanto, por trás dos números e dos boletos acumulados, há um fator decisivo que muitas vezes passa despercebido: a ausência de planejamento financeiro.
Esse cenário, silencioso e preocupante, resulta da combinação entre juros altos e decisões impulsivas, criando uma verdadeira armadilha. O consumidor, diante de uma oferta aparentemente vantajosa — “parcele em 12 vezes sem sentir no bolso” — raramente calcula o impacto real daquela compra no orçamento mensal. Quando percebe, a soma das parcelas compromete grande parte da renda, restando pouco espaço para despesas essenciais ou emergências, o que pode, inclusive, gerar impactos na saúde física e emocional.
Um dos grandes vilões nesse processo é o cartão de crédito. A praticidade e a ampliação dos prazos de pagamento, que a princípio parecem vantagens, oferecem ao consumidor a sensação de maior poder de compra. No entanto, o perigo começa quando se opta pelo pagamento mínimo da fatura. Embora pareça uma alternativa viável no momento, essa modalidade envolve taxas de juros elevadas. Assim, uma dívida inicialmente pequena pode, em pouco tempo, transformar-se em um valor difícil de administrar.
Quando se fala em endividamento, também é necessário refletir sobre o comportamento do consumidor. Nos últimos anos, a cultura do consumo imediato ganhou força, impulsionada por estratégias publicitárias cada vez mais persuasivas e pela influência das redes sociais. Muitas vezes, reforça-se a ideia de que adquirir bens é sinônimo de sucesso ou pertencimento, sem que haja reflexão sobre a real necessidade da compra.
A falta de planejamento financeiro agrava ainda mais esse cenário. Compras feitas por impulso e sem organização prévia acumulam valores significativos ao final do mês. Esses gastos podem fazer falta diante de imprevistos, como despesas médicas, consertos domésticos ou perda de renda. Nessas situações, a solução imediata costuma ser recorrer a empréstimos, iniciando um ciclo de dívidas difícil de romper.
Além disso, o acesso facilitado ao crédito, especialmente pelos meios digitais, tornou a contratação de empréstimos quase instantânea. A possibilidade de ter o dinheiro disponível na conta no mesmo dia ou em poucas horas pode se revelar a porta de entrada para um caminho de
endividamento prolongado. O que nem sempre é analisado com a mesma rapidez são as condições contratuais, as taxas aplicadas e o impacto das parcelas no orçamento futuro.
Nesse contexto, a educação financeira ganha relevância como ferramenta essencial de prevenção. Planejar não significa deixar de consumir, mas consumir com consciência. Elaborar um orçamento mensal, registrar receitas e despesas (seja no papel ou em planilhas), estabelecer prioridades e criar uma reserva para emergências são medidas simples que podem evitar grandes problemas.
Entre as técnicas utilizadas por especialistas em finanças pessoais está a regra 50-30-20. Ela sugere que 50% da renda mensal seja destinada a gastos fixos e essenciais, como aluguel, alimentação, transporte e contas básicas; 30% a gastos variáveis e desejos pessoais; e 20% a investimentos, poupança ou pagamento de dívidas. Essa divisão auxilia na organização e no equilíbrio financeiro.
Outro ponto fundamental é compreender como funcionam os juros. Saber diferenciar taxa nominal (aquela descrita no contrato) de taxa efetiva (a que realmente incide sobre o valor final), entender o que é o Custo Efetivo Total (CET), que engloba juros, tarifas, seguros e demais encargos, e comparar propostas antes de contratar um empréstimo são atitudes que fortalecem o consumidor.
O endividamento, portanto, não resulta apenas da falta de dinheiro, mas muitas vezes da ausência de planejamento e informação. Romper esse ciclo exige mudança de comportamento, acesso à educação financeira e maior consciência sobre as consequências das decisões tomadas hoje para o equilíbrio financeiro de amanhã.
Planejar é, acima de tudo, um ato de responsabilidade consigo mesmo. Em tempos de crédito fácil e consumo acelerado, organizar as finanças pode ser o primeiro passo para transformar dívidas em aprendizado e impulsos em escolhas conscientes.
Edvania Barbosa Oliveira Rage, Doutora em Direito e docente do Centro Universitário Martha Falcão Wyden




