
Enquanto a maioria dos adolescentes de 15 anos ainda tenta decidir qual carreira seguir, a brasileira Victoria “Vicky” Farfus já vive uma rotina digna dos grandes nomes do automobilismo mundial. Entre escola, preparação física, simuladores, viagens pela Europa em competições internacionais, ela constrói diariamente um objetivo ambicioso: tornar-se piloto de Fórmula 1.
Morando em Mônaco desde os primeiros meses de vida, Vicky cresceu cercada pelo universo do automobilismo. Mas, ao contrário do que muitos imaginam, viver no país que recebe uma das etapas mais emblemáticas da Fórmula 1 nunca foi sinônimo de glamour. Desde cedo, significou disciplina, dedicação e a compreensão de que talento só se transforma em resultado quando vem acompanhado de muito trabalho.
O primeiro grande reconhecimento veio em 2024, quando foi selecionada para integrar o Iron Dames Young Talents, programa internacional criado para identificar e desenvolver pilotas com potencial para alcançar as principais categorias do automobilismo mundial. A iniciativa é considerada uma das mais importantes plataformas de formação de talentos femininos do esporte.
Mas foi em setembro do ano passado que Vicky alcançou o resultado que a projetou definitivamente para o cenário internacional. Na ocasião, ela fez história ao conquistar o quarto lugar entre mais de 100 pilotos na Copa do Mundo de Kart, da FIA, disputada em Cremona, na Itália.
Com o desempenho, tornou-se a primeira mulher a terminar entre os cinco melhores em uma competição do kart mundial, um marco que a colocou entre os nomes mais promissores de sua geração. “Foi um momento muito especial, foi ali que veio a confirmação que a gente estava no caminho e que toda a preparação para aquela corrida tinha valido a pena. Também me deu confiança para acreditar ainda mais no meu potencial e mostrou que nós, mulheres, podemos competir em igualdade de condições no mais alto nível do automobilismo”, afirma Vicky.
A temporada histórica também lhe rendeu outro importante reconhecimento. Vicky passou a integrar o F1 Academy Discover Your Drive, programa oficial da F1 Academy voltado à identificação e ao desenvolvimento de jovens talentos femininos ao redor do mundo. A seleção para o programa reforçou o reconhecimento internacional de seu potencial e abriu caminho para o próximo desafio: a transição para os carros de fórmula, iniciando pela Fórmula 4 — etapa considerada fundamental na formação de pilotos que sonham chegar às principais categorias do automobilismo mundial.
Apesar da ascensão meteórica, ela prefere manter os pés no chão. “Sei que ainda tenho muito para aprender. Cada categoria exige uma evolução diferente e quero construir minha carreira passo a passo. Meu maior objetivo continua sendo chegar à Fórmula 1”, conta a jovem.
Muito além do sobrenome
Filha do piloto Augusto Farfus, um dos brasileiros de maior destaque no automobilismo internacional, Vicky cresceu acompanhando corridas, aprendendo sobre estratégia e convivendo com alguns dos maiores nomes do esporte. Ainda assim, faz questão de construir uma trajetória própria.
“Tenho muito orgulho da história do meu pai e de tudo o que aprendo com ele. Mas quero ser reconhecida pelo meu trabalho, pelo meu nome e pelas minhas conquistas”, diz Vicky.
Augusto acredita que essa independência explica boa parte dessa evolução. “Ela nunca quis ser conhecida apenas como minha filha. Sempre deixou claro que queria escrever a própria história. Meu papel é compartilhar experiência, orientar quando necessário e deixá-la conquistar cada etapa por mérito próprio.”
A preparação acontece diariamente, muito além das pistas. Antes mesmo do café da manhã, pai e filha frequentemente discutem comportamento do carro, estratégias de corrida e interpretação das informações transmitidas pelos engenheiros. Segundo Augusto, a facilidade de Vicky para compreender rapidamente os aspectos técnicos do automobilismo é uma das características que mais impressionam.
“Ela consegue entender o comportamento do carro, interpretar o que precisa ser ajustado e transformar isso em desempenho. Essa capacidade de aprendizado é rara”, avalia Augusto.
Embora o automobilismo ainda seja predominantemente masculino, programas como a Iron Dames e a F1 Academy vêm ampliando as oportunidades para mulheres em diversas categorias internacionais.
Vicky acredita que essa mudança acontece principalmente por meio dos resultados.
“Quero ser lembrada pela minha performance. Se minha trajetória também inspirar outras meninas a acreditarem que podem chegar até aqui, vou ficar muito feliz.”
Mesmo vivendo na Europa, ela faz questão de representar o Brasil em todas as competições. “Tenho muito orgulho de levar a bandeira brasileira comigo. Quero que as pessoas que acompanham minha carreira, sintam que estou representando o nosso país nas pistas.”
Uma nova geração de mulheres no automobilismo
A rotina intensa deixa pouco espaço para uma adolescência convencional. Entre provas escolares, treinos físicos, simuladores, viagens e campeonatos, o tempo livre é raro. Ainda assim, Vicky procura preservar momentos com amigos, ouvir música e aproveitar a convivência com a família.
Agora, enquanto inicia sua preparação para a Fórmula 4, Vicky sabe que o caminho até a Fórmula 1 ainda será longo. “Ter talento é importante, mas disciplina e trabalho duro são o que realmente fazem a diferença para um piloto chegar mais longe”, afirma.
Para ela, os resultados na pista são a melhor forma de conquistar espaço e quebrar barreiras. “Dedicação, talento e desempenho não têm gênero. ”
O próximo capítulo será nos carros de fórmula — onde pretende seguir escrevendo uma história própria em busca do maior sonho de sua carreira.




