Estabelecera de mim para mim mesmo que não escreveria para saudar as mães no dia em que lhes são reservadas homenagens especiais, porque ainda é forte sobremaneira a dor da saudade no vazio impreenchível que sufoca as lembranças todas da mão iluminada de Sebastiana, que abençoava filhos que eram seus e os que recebeu mercê do dever de educar e de ensinar que cumpriu até a hora última de permanência neste plano da vida.
Professora da palavra, do gesto de carinho, da capacidade de compreender, de amar e de se dar em entrega que se renovava a cada amanhecer na caminhada lenta e segura para a escola que, com seu nome, recebia meninos pobres da Sapolândia e dos Alvoradas da vida, de onde saíram médicos, advogados,, engenheiros, farmacêuticos, educadores, empresários, garis, mulheres e homens formados na crença da construção permanente de uma sociedade melhor.
O alvor de seus cabelos parecia cintilar em contraste com os raios do sol que chegava para ficar e seu sorriso largo e franco era convite à vida que ela dizia e mostrava amar.
Sua voz doce e meiga, que encantou o comandante Lourenço por mais de meio século, era enternecedora, transmitia paz ao espírito, mas não se fazia vaga quando o vigor da reprimenda se impunha, não raro acompanhando-se do beijo de acolhimento e de ternura.
Incomparável sua capacidade de amar!
Suas mãos, feitas para abençoar, que a mim me conduziram e me acalentaram para receber o primeiro alimento, extraído de seu próprio seio, instante em que se há de ter celebrado um pacto mudo de amor transcendente, para muito além do depois, foram as que me conduziram para o encontro com as primeiras letras, os primeiro bancos escolares, os primeiros livros e que também se fizeram postas para encaminhar â Maria de sua devoção preces fervorosas em delicado instante de minha vida, vitimado por acidente que me reduziu a visão. Ali, iniciando a vida adulta, terei experimentado por certo a força maior do amor materno, que digo impossível de descrever, ainda que assim tente o poeta mais sensível.
Foram mãos que abençoaram meus filhos e que, certamente por merecimento nosso diante de Deus, ajustaram em mim os paramentos de primeiro Reitor de nossa Universidade dos povos da floresta e de seu beijo na fronte, na hora do encantamento, guardo o carinho e as preces pelo sucesso na caminhada nova, corações pulsando em sintonia única de amor e de agradecimento.
Quando João, o primogênito que com ela deve hoje habitar planos outros da vida espiritual, participou de sua última sessão plenária de Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, depois de haver exercido outras funções de relevância, inclusive a de Vereador e de Prefeito de Manaus, Sebastiana a todos surpreendeu ao pedir a palavra e o Presidente Júlio Cabral fugir ao protocolo e a conceder, e de improviso pronunciou discurso memorável, de louvor, de respeito institucional e de conclamação aos que ali permaneceriam para que continuassem a exercer o “múnus” público com os predicados com que o filho o fizera. E foi ela, ao lado do Presidente, quem declarou encerrada a sessão, fazendo-o em abraço que parecia envolver quantos ali se encontravam. Extraordinário momento de amor e de beleza.
As mães de todas as idades, de todos os cantos deste mundo, sabem do que venho de falar. Bem por isso que as reverencio, a todas que, em verdade, são escolhidas pela Providência para plantar e ensinar a vida.
Eis por que me impusera não escrever. As lágrimas que me molham a face juntam-se às que explodem no peito e eu as quis evitar. Ledo engano! Tê-las-ia em mim mesmo permanecendo em silêncio porque este sou eu e ninguém é capaz de renegar-se a si mesmo.
Lourenço Braga, do Instituto Geográfico e Histórico do
Amazonas



