Amigdalite em crianças: por que algumas têm crises recorrentes e quando é preciso investigar

Infecções virais são mais comuns na infância, mas quadros provocados por bactérias podem exigir tratamento específico e, em alguns casos, até cirurgia, alerta otorrinolaringologista

Crédito: Imagem de magnific

Dor de garganta, febre e dificuldade para engolir estão entre os sintomas que mais preocupam os pais durante a infância. Eles podem aparecer quando as amígdalas, estruturas de defesa localizadas na garganta, são infectadas e ficam inflamadas, quadro conhecido como amigdalite. A infecção pode ser causada por vírus ou bactérias e, embora a maioria dos casos seja viral, algumas situações exigem tratamento específico. Entender a origem da doença, reconhecer os sinais de alerta e saber quando episódios frequentes precisam de investigação são medidas importantes para cuidar da criança e evitar complicações e o uso desnecessário de antibióticos.

Segundo a Dra. Raquel Rodrigues, otorrinolaringologista do HOPE, em crianças menores predominam as infecções virais, enquanto os casos provocados por bactérias costumam aparecer com mais frequência a partir dos 4 ou 5 anos. “De uma forma geral, os quadros virais costumam vir acompanhados de outros sintomas, como coriza e nariz entupido, e começam de maneira mais gradual. Já quando a infecção é causada por bactéria, o início tende a ser mais súbito, com febre mais alta e sintomas mais concentrados na garganta”, esclarece.

Durante uma crise, os pais devem observar principalmente a capacidade da criança de se alimentar e se hidratar. Prostração intensa, dificuldade para ingerir líquidos, dor que permanece forte mesmo após o uso de analgésico e febre que não melhora com a medicação são sinais de alerta que indicam a necessidade de avaliação médica. “Independentemente de ser um quadro viral ou bacteriano, a criança precisa permanecer hidratada e receber aporte calórico adequado. Quando ela não consegue beber ou comer, mesmo com o controle da dor, é preciso procurar atendimento prontamente”, orienta.

Crianças apresentam mais infecções virais do que adultos, em parte porque o sistema imunológico ainda está em processo de amadurecimento. Isso, no entanto, não significa que toda dor de garganta recorrente seja uma amigdalite bacteriana. Rinite, sinusite, respiração pela boca, refluxo e até estomatites, inflamações na boca que podem provocar aftas, dor e febre, também podem causar sintomas semelhantes. Por isso, a avaliação médica é importante para identificar a origem do problema.

Quando há confirmação de infecções bacterianas recorrentes, os especialistas podem utilizar os critérios de Paradise para avaliar a indicação de retirada das amígdalas: sete ocorrências em um ano, cinco por ano durante dois anos consecutivos ou três por ano durante três anos consecutivos. Para que sejam considerados, os quadros precisam ser devidamente caracterizados como bacterianos. “Quando a criança já teve duas crises no mesmo semestre, mesmo que ainda não esteja dentro dos critérios formais para cirurgia, eu considero importante procurar avaliação. Muitas vezes conseguimos identificar e tratar algum fator que esteja contribuindo para a repetição antes que o problema se torne mais frequente”, afirma a otorrinolaringologista.

A indicação da cirurgia, porém, não depende apenas da frequência das crises. Complicações como o abscesso periamigdaliano, uma bolsa de pus que se forma ao redor da amígdala durante uma infecção, também podem levar à recomendação de retirada das amígdalas. “O paciente que teve um abscesso periamigdaliano, por exemplo, também pode ter indicação da remoção, porque existe a possibilidade de esse quadro voltar mesmo depois de tratado. O momento da cirurgia vai depender de cada situação e da avaliação médica”, explica.

O acompanhamento após uma crise também é importante. A urgência tem como objetivo controlar o episódio agudo, enquanto a avaliação ambulatorial permite investigar por que ele está acontecendo. “Eu costumo dizer que a emergência está ali para apagar o incêndio. O acompanhamento com o otorrinolaringologista é o rescaldo e o cuidado para evitar um novo incêndio”, comenta.

Além das amígdalas, a adenoide também pode estar envolvida nos problemas respiratórios e infecciosos da infância. Localizada na região posterior do nariz, ela é um tecido linfático que participa da defesa do organismo, especialmente nos primeiros anos de vida. Em algumas crianças, porém, pode crescer excessivamente ou permanecer colonizada por bactérias, favorecendo sintomas persistentes.

“Quando a adenoide aumenta além do esperado e provoca obstrução nasal, ronco ou dificuldade para respirar durante o sono, a remoção pode ser indicada quando o tratamento clínico não é suficiente. Em outros casos, a cirurgia pode ser considerada pela recorrência das infecções associada à colonização bacteriana do tecido”, pontua.

Amígdalas e adenoide têm funções importantes na infância, mas alterações nessas estruturas podem estar por trás de infecções recorrentes e também de problemas respiratórios. Por isso, mais do que tratar cada crise isoladamente, é importante entender o que está acontecendo com a criança e acompanhar a evolução do quadro. “Quando a amigdalite virou repetição, muitas vezes já chegamos um pouco tarde. O mais importante é olhar para a criança como um todo, identificar o que está causando essas queixas e agir antes que novos episódios se acumulem”, finaliza a Dra. Raquel Rodrigues.

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