Investigações sobre a morte da soldado Gisele Alves, ocorrida em fevereiro no Brás, trazem à tona detalhes sobre o comportamento do tenente-coronel Geraldo Neto. Mensagens extraídas dos celulares do casal revelam que o oficial da Polícia Militar exigia relações sexuais da esposa utilizando o argumento de que era o provedor do lar. Geraldo está preso preventivamente e tornou-se réu por feminicídio e fraude processual, após a perícia indicar que ele simulou o suicídio da vítima.
De acordo com o Ministério Público, o crime foi motivado por um ciúme patológico e pela recusa do oficial em aceitar o divórcio. Em uma das conversas analisadas pela Polícia Civil, enviada 15 dias antes do crime, o tenente-coronel afirmou que o casamento era uma via de mão dupla onde ele contribuía com dinheiro e ela deveria retribuir com carinho e sexo. A investigação aponta que a relação era marcada por violência psicológica, machismo e controle financeiro.
O perfil de controle e as ameaças
Cinco dias antes de ser morta com um tiro na cabeça, Gisele comunicou ao marido que estava decidida a se separar, declarando-se praticamente solteira. A resposta do oficial foi imediata e ameaçadora ao afirmar que isso jamais aconteceria. Nos registros, Geraldo se autodenominava macho alfa e exigia que a esposa se comportasse como uma fêmea beta, obediente e submissa, alegando que essa era a conduta esperada de toda mulher casada.
O oficial impunha regras rígidas sobre o comportamento cotidiano de Gisele, incluindo restrições de vestimenta e a proibição de cumprimentar outros homens. Ele reforçava a ideia de que, enquanto ela estivesse sob sua comanda, deveria seguir suas normas de submissão. Ao ser questionado pela vítima sobre a falta de romantismo, ele se descreveu como rei e soberano.
Fraude processual e desdobramentos jurídicos
Laudos periciais e a reprodução simulada do crime descartaram a hipótese de suicídio inicialmente apresentada pelo oficial. A acusação afirma que Geraldo segurou a cabeça de Gisele e efetuou o disparo, manipulando a cena do crime em seguida para enganar os investigadores. Diante das evidências, a Justiça Militar determinou a prisão para garantir a ordem pública e a disciplina da corporação, dado que ele ocupava posto superior ao da vítima.
O caso agora deve seguir para o Tribunal do Júri na Justiça comum por se tratar de crime doloso contra a vida. O Ministério Público solicita uma indenização mínima de 100 mil reais aos familiares da soldado. Este é o primeiro caso desde 2015 de um oficial da PM paulista preso por feminicídio, crime que, sob a nova legislação, prevê penas que podem chegar a 40 anos de reclusão.
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