
Diz o ditado que “quem não é visto, não é lembrado”. Mas, na atual gestão da comunicação oficial do Governo Federal, o ditado ganhou uma variante perversa: gasta-se bilhões para ser visto pelos mesmos de sempre, enquanto se ignora quem realmente fala com o Brasil profundo. A estratégia da SECOM não é apenas elitista; ela é, tecnicamente falando, anacrônica e ineficiente.
Enquanto o Presidente da República cumpre agendas internacionais de peso — como o recente encontro de mais de duas horas com Donald Trump nos EUA, que exigia uma narrativa de pragmatismo e soberania — o que vemos na ponta? Um vácuo. Ou pior: a notícia mastigada e filtrada pelos grandes grupos de mídia que, ironicamente, são os maiores beneficiários dos recursos públicos, mas nem sempre os maiores aliados da transparência informativa.
O abismo dos critérios
A lógica da SECOM parece ter parado em 2003. Continua-se operando sob o vício do “alcance de massa” em detrimento da efetividade da mensagem. É administrativamente cômodo para um gestor em Brasília assinar contratos vultuosos com o Grupo Globo, o UOL ou a CNN. É o que chamam de “zona de conforto da mídia”.
Por outro lado, o que vemos para a mídia regional é uma política de migalhas. Destinar valores simbólicos, na casa dos R$ 3 mil, para portais que sustentam o jornalismo diário no Amazonas, no interior de São Paulo ou no Paraná, não é política pública de comunicação: é o sufocamento da pluralidade. Como exigir profissionalismo e combate às fake news se o governo trata a mídia digital independente como figurante no orçamento da União?
Guerra Digital se vence na Capilaridade
Vivemos tempos de guerra digital e desintermediação. A opinião pública hoje é moldada nos portais de notícias locais e pelos influenciadores regionais que possuem o que a grande mídia perdeu: identidade e confiança territorial.
Ao marginalizar as “verdadeiras mídias digitais”, a SECOM comete um erro primário de inteligência. Se o governo não alimenta a base com dados, exclusivas e investimento digno, ele entrega o território de mãos beijadas para as narrativas paralelas. É uma falha de estratégia que beira a negligência política.
O erro de Gestão
A comunicação oficial é tecnicamente míope porque ignora o custo-benefício. O impacto de pulverizar a verba em mil portais regionais — que falam diretamente com o eleitor e o cidadão comum — é infinitamente superior à concentração em cinco ou seis grandes CNPJs que falam para a bolha da Avenida Paulista.
O resultado é um governo que realiza o encontro, mas não domina a repercussão. A imprensa “alimentada” pela SECOM faz o básico, enquanto a mídia digital independente, que deveria ser o pilar da democratização da informação, é ignorada pela burocracia de Brasília.
A SECOM precisa entender que o Brasil é um continente, não um estúdio de TV no Rio de Janeiro. Enquanto não houver uma descentralização real e técnica dos recursos, a comunicação pública continuará sendo um monólogo caro, ineficiente e, acima de tudo, desligado da realidade do povo brasileiro.
No Amazonas, senhora Secom, a população dispõe de mais de 400 veículos de mídia. E uma coisa é certa: a grande mídia não está incluída nesse número.
Texto: Ronaldo Aleixo.




